"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

CRÔNICA DO DIA


[postado da varanda, sob intenso frio.
Imagem: El Sueño - Francisco de Goya].


A BAÍA TURVA

Venta como ninguém. Fim de um inverno interminável que ainda resiste aos golpes de sol.

Adiante, treliçada pelo parapeito da varanda a baía norte é um lençol marrom. Pensasse nela como cama, diria que sim, que está ornada por antiquíssimo lençol marrom, já gasto e um tanto impróprio para o sono. E sobre este lençol, em franjas que se dobram por toda a superfície, rendas brancas que o vento vai soprando com extrema volúpia.

Ao largo a Ilha de Santa Catarina. Travesseiros, por analogia. Travesseiros verde-olivas, algo desbotados por uma névoa que lhe parece eterna. Penso na névoa como um branco véu dependurado em local inimaginável, talvez um dossel invisível que mantêm afastados dela os mosquitos, o brilho, o direito de ser verde até cegar.

Por derradeiro os prédios, mas primeiro as pontes. A de ferro, antiga feito o tempo, solitária como um açor no alto céu. Partes dela carcomidas pela ferrugem, lembram chagas vivas, cascudas. Parece-me que sua pele foi esfolada nessas partes e sua fragilidade metálica escapa por entremeios.

Outras pontes, de concreto, escoam veículos de todos os tamanhos. Tão apressados a ponto de iludirem. Chego a imaginar que são elas, as pontes, que os atravessam, e não o inverso.

Depois os prédios. Sim, os prédios. Expectadores enfileirados ao longo da orla, gente de concreto de alturas diversas, de olhos vítreos migrando entre verde e azul, ora transparentes e reflexivos, ora ocultos por lentes escuras.

De toda a paisagem que se avizinha apenas a baía, este leito macio e profundo, denuncia que a primavera tardará. Está turva e desolada. Não fosse por um barco que teima em se equilibrar dependurado à sua frágil âncora, estaria completamente só.

Agita-se, sacode suas águas. Joga-se contra as pedras em violentos e repetitivos suicídios líquidos. Desde a manhã castigada por lufadas intensas. Varou o dia a se debater, tentando, creio eu, livrar-se das cores ocres. Em vão.

Está assim, bem agora. Crespa de ondinhas. Banhada por um sol que não reflete em suas águas. Sinistra feito uma noiva, com grinaldas de flores secas, vestido velho e marrom. O noivo mar não a veio desposar.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


A CORUJA

Dias degenerados
Salgados ácidos amaríssimos
Sabores de frutas futuras
Impermeabilizam-me

Finco nos alicerces
A inconstância

Flâmula irrequieta
Nas mãos do vento se vai oferecendo
Dando-se
Recolhendo-se

Andares abaixo
Meninos degenerados acendem 
Bombinhas explodem 

Ondas de choque estampidos
Canonizam em pólvora
A alvorada

Frio tem sido
Frio o tecido
Frios os arcos da ponte o mar os diamantes
Em meus olhos

Frios e brilhantes
Árticos arcos ponte mar meu olhar
Diamantes

Sonho com uma ave
Que arrapine bombinhas
Regurgite idade nas bocas dos meninos
Faça o silêncio imperar

O grande ovo do silêncio
Eclodido em meu plexo solar

Pássaro radioso
Com asas me cubra
Voe-me para o alto alto extremo
Alado bicho

Taciturno-luminoso

Coruja das neves

Emplumando alva quietude
Enquanto a noite vem


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS


DEPILAÇÃO ESSENCIAL


Triste
Feito um oceano lacerado
Um oceano velho e lacerado

Quis aparar
Os pulsos
Os cabelos
Os pelos de todas as emoções
Torná-las planas.

Acordei
Com desejo de estar nu
Raspei-me

Friccionei contra lixas de sobrevivência
O meu espírito
Lavei-o com lâminas de sal

Agora estou

Algo mais leve
Tanto mais breve
Deveras sujo áspero delével

Como um oceano lacerado
Sem peixes ou algas
Sem fundo


Mas liso

CRÔNICA DO DIA


MELANCIA


Vejam que é uma bobagem, mas uma bobagem justa.

O homem brinca de Deus para alimentar o próprio egoísmo. Estamos apressados, imersos em nossas necessidades sacos-sem-fundo, dores, desejos, posses, umbigos. E tal imersão nos vai lentamente segregando.

Há muito me deparei com aquilo que (no instante mágico da descoberta) considerei a reinvenção do universo. O milagre supremo, a panaceia para uma de minhas paixões elementares: uma minimelancia. Tão bonitinha que dava vontade de pôr no colo, desenhar carinha com caneta hidrocor e, de quando em vez, fazer-lhe bilu-bilus.

Aos que ainda não entenderam, confesso: sou tarado por melancia! (Sempre que as devoro me pergunto se seriam maiores de idade. Isso para não cometer “frutifilia” ou “pedofifruta”, tamanha a lascívia).

Então, durante um bom tempo pensei que minimelancia fosse definitivamente a cura para dois males. Primeiro: o remorso por comprar uma fruta enorme e vê-la lentamente fenecer entre garrafas d’água e caixas de leite. Segundo: a tristeza por ter de deitar fora alguma fatia não comida.

Depois descobri que não. Que minimelancia é um milagre ao contrário, pois se presta à individualização.

Quando criança – família grande – partíamos, sei lá, duas melancias de uma vez. Ficávamos em volta delas, celebrando seu vermelho, orando com dentes e línguas sua carne doce. Era bom e bonito o sacrifício da fruta. Sobre seus ossos-sementes descansava a volúpia familiar, satisfeita em gozo gustativo.

O tempo destrói tudo, inclusive a si próprio. Hoje já não o temos em demasia e ele corre cada vez mais rápido. Um Usain Bolt invisível.

Comemos em fast-food’s (de pé), levamos frutas ou barras de cereais (e isso me fez lembrar uma companhia aérea que não vem ao caso) em nossas bolsas e mochilas. Não paramos nem celebramos porque estamos ocupados demais. Mas, com o que? Perseguimos o que, exatamente?

Escutem o que digo! Esse tempo é recordista universal. Por mais que se corra o prêmio obtido será sempre a medalha de prata.

E retornando à melancia – as convencionais - (que, graças ao capricho divino ainda não cabe na bolsa), percebi finalmente sua razão de ser. Ela existe para lembrar que coisas doces e simples merecem ser partilhadas e aproveitadas até a casca.

Melancia é a resposta à pergunta primordial: a razão de existirmos. Existimos para comungar, para somar à beleza coletiva; existimos para o outro e pelo outro. Somos parte da cadeia de DNA da existência; cada um lhe atribuindo alguma característica.

Portanto, viva a melancia de oito quilos! Líquida, vermelha, açucarada. Que sempre nos remeta ao que realmente importa.

Ah, e tem mais: as poucas sementes das minimelancias são incapazes de germinar.


terça-feira, 7 de setembro de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


SELVAGEM

Cru
Homem sem pele
Aprende com serpentes
A se reinventar

Manca
Pisa em falso
Hiena que perdeu para os leões
A luta
A comida
A perna
Insiste em rir

Come vespas
Imaginando mel
Beija ferrões
Pensando serem doces
Anda torto
Para o lado
Sonhando que o mundo
Esteja penso.

Belo
Feito um morcego
Pinta de negro
Asas de querubins
Para que negras sejam
Ele seja
E não morcego

Homem alado
Magnífico e mitológico
Objeto da própria arqueologia
De si o arqui-inimigo

Escava

Quanto mais fundo
Mais asa
Mais perigo.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


TARDES ALADAS

Trêmula ainda
E úmida
E morna.
A mão.

Sobre elas o silêncio carmim
Entre eles desterros violáceos
Acima de todos
Nuvens letais
Atravessando-os.

[Vagava a tarde
À beira de se perder].

Pássaros negros em festa
De carniça
Bicavam-na.

Tudo se foi recolhendo.

O suor das mãos
O silêncio das horas
O desterro inominável.

As nuvens também.

Restaram apenas os pássaros
Que na carcaça da tarde
Se fartavam

Comeram
Tornaram-se.

Tardes aladas
Alaranjadas.

Voejando
Para depois do horizonte.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

POEMAS PERDIDOS NO TEMPO


Trata-se de um poema recifense.
Coincidentemente escrito num dia 02 
de setembro. (Homenagem ao seu
aniversário).

A ANDORINHA CAÇA

No inverno das chuvas recifenses
A andorinha caça

[Trégua das águas]
Sob frestas de sol
A andorinha caça.

Ignorarando que o verão ainda não
A andorinha caça

Sozinha

Sem se importar que sozinha não fará.

Sabe.
Instintivamente sabe
Que a estação virá
Feita por ela
Ou não

A andorinha caça
[Não precisa de verão]
Precisa comer.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


Invenção de meu “poema de sete faces”, 
em homenagem a Drummond e a Adélia. 
Mais leves do que eu. Mais belos do que eu, 
mais profundos do que eu jamais conseguirei ser.


POEMA DE SETE FACAS

Deste-me o quanto me tiraste; não te devo
Recolhe tuas promissórias de beijos regurgitados
Língua de faca; enquanto lambe desossa
Longe de mim menstruar tuas hemorragias.

Vês que exaurido ainda nos pés me apóio; não curvo
Reverências que esperavas pelo empréstimo; pois te digo
Fui eu que me emprestei para que fosses gume
Fio agudo; sai com teu corte para outro indivíduo.

Lastimas pelo óbolo que te negaram; não o fiz
Tua couraça bandeja repleta; ainda queres e mais queres
Vai-te com teu egoísmo sumidouro; faca desembainhada
Apoderar-se do alheio despojo; porque não do meu.

Quando eu nasci ocultaram-me; houve um anjo
Soberbo como tuas asas remanescentes; ainda hoje
Tens constates asas com penugem laminada; faca
Anjo que eras tu e eu e ele costurados; e o corte.

Bênçãos de escalpelar que me conjuras; as rejeito
Teu sortilégio arpoador; encanta-o nas próprias costas
Ferócia emprestada que queres vestir; te afianço
Dois bichos não habitam a mesma pele; mesma bainha.

Foste-me o quanto me fizeste; ao pé da letra
O testamento de ambos celebra único herdeiro; o cabo
Todo o resto resguardado sob a superfície; enfiado
Até o cabo feito um osso ou um sentimento; comuns.

Quando eu nasci revelaram-me; houve um anjo
Nascemos um para o outro e no outro; consumidos
Um só fio faca corte nascimento; desde então estamos.
Desde que nasci... Quando? Quando eu nasci? Nasceste.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS


MUITO ASSUNTO PARA POUCA ÂNIMA

[Tratados filosóficos universais]

Manifestos existencialistas
Impressos em lambe-lambes.
A ciência encontrou a cura
Para a lascívia dos ratos.

A mim, só me comove um chá de hibiscos.
O gosto de língua queimada.

[Evangelhos de religiões vindouras]

Enciclopédias em sânscrito e latim
Alimentam o mofo nas bancas de usado.
O homem não está só na via láctea:
Eis a resposta!

Um chá de hibiscos
E alguns biscoitos de mãe, é o que me basta.

[Incalculáveis dados nos DNAs]

Teoria da evolução
Estagnada desde as Ilhas Galápagos.
A lua poderá ser habitada,
Desde que se lhe invente chuva, atmosfera.

Eu, raso e pálido.
Admiro meu reflexo no fundo da xícara.

[Cartas das modernas navegações]

Atlas do corpo e dos continentes
Apontam para caminhos inexplorados.
Toda a sabedoria converge
Para a completa falta de surpresas.

Indiferente, quero estar quieto.
Tomar o chá com demônios cotidianos.

Muito assunto, muito!
Barulho por demais.
A alma fala pelos cotovelos.

Sirvo o chá e dou-lhe um beijo
Na esperança de que adormeça
Antes de saturar-se.

[Antes de mim].


POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS


PARTO PREMATURO

Fórceps
Fórceps
Fórceps
Delirava a alma
Içada pelas têmporas.

Às mãos vermelhas do destino
Sacudia-se
Querendo respirar.

Desabotoado, o peito,
De cima a baixo
E sendo cosido
Com cordas de aço.

“Está viva?”

“Sim,
Mas irremediavelmente aleijada”

[Dependerá de cuidados
Para não ser torta]

Hábeis mãos
O destino aparou as pontas
Da derradeira laçada,
Como o fizesse aos chifres de um novilho,
Para amansá-lo.

Estendeu-me a cria
Ainda quente
Ainda suja
E eu a tomei nos braços
Lambi e ferrei
Para que tivesse a minha marca.

Para que quando a vissem mancando pela vida
Soubessem-na única.