"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

domingo, 31 de outubro de 2010

OS APANHADORES DE FRUTAS


[Imagem: Peaches spilling from a basket
- Levi Wells Prentice
Vídeo: Marta's song - Deep Forest]
  
Há uma lenda sobre dois apanhadores de frutas. A um era atribuído o encargo de subir nas árvores para apanhá-las. O outro permanecia no chão, de cesto em punho, recolhendo-as, de modo a evitar que a queda lhes magoasse e perdessem viço e sabor.

Certa vez, cansado de se esgueirar por entre galhos enquanto ao companheiro era dada a segurança do chão, o primeiro se queixou:

- “Ora, por que me são reservados o perigo e a dificuldade, e a você a sombra e o conforto?”

Sem desmerecer o esforço de seu par o homem do cesto lhe respondeu:

- “Tem paciência! Os olhos nem sempre são os melhores conselheiros... Ademais – continuou – novas árvores foram plantadas e o futuro há de te reservar um outro posto, além do merecido cesto”.

Tendo ouvido a conversa, uma aranha se equilibrou em sua teia, próxima que estava do apanhador, ao alto dos galhos, e sussurrou:

- “A mim também não parece justo que você enfrente espinhos, ramos e folhagens cerradas, enquanto que ele apenas recolhe os frutos”.

Percebendo que o homem lhe dava ouvidos, a aranha prosseguiu:

- “Há muito que lhe acompanho o empenho. Estou certa de sua capacidade; a mim me parece que você poderia realizar não só o seu trabalho, como também o dele. E em assim fazendo o dono do pomar notará seu esforço e lhe dará aquilo que anseia e tanto merece”.

Tendo as cinzas de suas convicções sopradas pela aranha, engendrou plano. No dia seguinte, mal amanhecera, estava ele entre os galhos, em posse da cesta que furtara durante o sono do amigo; e colhendo.

O parceiro tardou naquele dia. Já alto o sol, quando se aproximou da árvore encontrou no chão o apanhador ferido; os frutos espalhados.

Sem titubeios ou malícias, apressou-se em acudi-lo. Juntou também os frutos antes que lhes viessem supervisionar, conforme era o costume.

Já acomodado contra o tronco da árvore, observando o companheiro recolher o espólio de sua ambição descontrolada, ele o interrompeu:

- “Não entendo. Você sabe que, ao lhe furtar o cesto queria provar que sou capaz de substitui-lo e que seu trabalho é desnecessário. Ainda assim você me ajuda?”

O outro observou longamente sua irresignação, depois respondeu:

- “Vê esses frutos? Assim como estão não servem para nada. Só os que estiverem intactos serão aproveitados. Só eles servirão ao patrão”.

Ao perceber que o homem ferido ainda não o compreendera, seguiu:

- “A cada trabalhador é reservado um papel”.

Entre gemidos o outro o interpelou:

- “Mas sou eu quem corre o maior risco e executa grande parte do trabalho”.

O companheiro se aproximou e lhe explicou:

- “É certo que você tem os espinhos e galhos, e que a altura é tua constante companhia. Mas há também o sol por entre as folhas, o céu ao seu alcance e o vento fresco em sua pele. Eu tenho o chão e as sombras escuras... Você recolhe os frutos e os atira, mas sou eu quem lhes recebe o baque na palma das mãos”...

Pausou e continuou:

 - “Todas as manhãs, enquanto você ainda dorme, eu inspeciono, uma a uma, as tramas do cesto. E antes que chegue ao eito eu já me certifiquei de que não existam colmeias ocultas entre as folhas, serpentes no caminho, nem galhos quebradiços... Quando finda o dia e você se vai eu alço às costas o cesto de frutas e vou ter com o patrão. É nessa hora que lhe presto contas e ele examina detidamente cada um dos frutos”.

O outro o encarava e ele prosseguia:

- “Antes de receber a obrigação desse cesto aprendi a escalar árvores, a valorizar a colheita, o sol, o vento e o céu. Aprendi a lançar os frutos de modo que meu companheiro não se ferisse nem os deixasse caírem, porque compreendia o valor de meu trabalho e também do dele. Éramos uma equipe e a qualidade dos frutos que ele levava ao patrão me era motivo de orgulho; isso porque a integridade e a beleza do que apresentávamos começava por minhas mãos”.

Por fim, arrematou:

- “A aranha também me aconselhou, mas eu sempre desconfiei de quem arma a teias... Descobri, nesse tempo, que para fazer jus ao cesto é preciso merecê-lo. Mais que isso, é preciso saber valorizar todas as etapas da colheita... Tens aí os frutos de teu ardil. Apresenta-os ao patrão, se tiver coragem”...

E se calou, pois não havia mais nada que ser dito.

[Das: CRÔNICAS ESPARSAS]

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

ENDEREÇOS CORONÁRIOS


[Imagem: Memory or The heart - Frida Kahlo
Vídeo: Litle girl blue - Nina Simone] 

Beco de putas,
Templo de beatas.
De bater, meu coração, já não escuta
A marcha da vida sobre duzentas patas.

Esquina de moços lascivos,
Academia de doces rapazes.
Vivo, meu coração, entre outros vivos,
Ressente-se por emoções muito fugazes.

Calçada de viciados,
Passeios de família.
Entre um hemisfério e outro, ancorado,
Meu coração, esta remota ilha.

Covil de malfeitores,
Esconderijo de perseguidos.
Meu coração no céu de caça dos açores
Recolhe espólios de canários abatidos.

Caverna de eremitas,
Palco de encanações.
Tine, retine, pancadas fortes e aflitas,
Meu coração aflito, junto a quietos corações.

Praça de touros,
Rua de via-sacra.
Coração pleno de dejetos e tesouros,
Ora se abre e festeja; ora se esconde e se lacra.

[Dos: POEMAS DO ESTOQUE]

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

VAGA SENSUAL


[Imagem: Study of a Nude
Jean-Auguste-Dominique Ingres
Vídeo: Tu es ma came - Carla Bruni]

Deite o teu charuto,
Teu conhaque,
Teu livro de cabeceira.
Na poltrona de couro
Repousa o Douro
Em rótulo de vinho.
Mas para o teu havana
Melhor mesmo esse conhaque,
Essa bebida bacana;
Assim como o seria
Para acompanhar tua alva sangria
Uma orquestra de atabaques.

Lanha tua lenha
Na lareira.
É frio ou chove ou é charme,
Aquecer os pés,
Aquecer a goela,
Esquecê-los dormentes
Entre o copo, a almofada e a vela.
Lenha que se consome.
E tua fome cedendo às ameaças
Do álcool e da fumaça.
Porque de outra forma, homem,
Não teria a menor,
A remota, a mínima graça.

E se te deitarem no colo,
Te oferece;
Mostra teu peito macio
Pelo, alcova, cova, cama,
E se te morrerem no colo
Por um pouco,
Esquece os teus vícios
E dê-se ao sacrifício
De acariciar.
Ama quem te fez
Pelo, alcova, cova, colo, cama.

E se te quiserem mais
Não se acanhe.
Deite teu prazer de fumo
Teu copo raso de conhaque
Teu livro gasto de cabeceira
Deixe chegar a canseira
Desarme a guarda para o ataque
Ofereça-se ao consumo.

Para que regrar
O que não finda?
Para que guardar na fonte
O que abundante jorra?
Nada!
Há mais tabaco para queimar
Na guimba,
Tonéis de bebida
Para se ir à forra;
Farta-te do que de derem,
Lambe e lambuza
Usa
Não recusa nem te afasta.
Enche teu copo,
Acende um outro,
Fecha o teu livro e aproveita.

Não gasta!

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

CENA INSANA


[Imagem: Benny's scarecrow  - Andrew Wyeth
Vídeo: Seemann - Nina Hagem e Apocalyptica]

Enfileiram-se espectros
No parapeito.
Um após outro, se atiram.
Há os que avoam
Junto dos que conspiram.

Nas calçadas
Plateia enfileirada.
Aplaude a cena,
Um a um; levitando, descendo...
Mais de uma dezena,
E se vão dissolvendo.

A turba se ri, que delira
À medida que as figuras desaparecem.
Gritam, festejam, comemoram;
No átimo seguinte esquecem.

E as figuras espectrais
Que prepararam o espetáculo
Para distrai-los
Saltaram em vão o obstáculo,
Saltaram para jamais,
Sem lágrima alguma para redimi-los.


[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

terça-feira, 26 de outubro de 2010

DO MERECIMENTO


[Imagem: Night - Edward Robert Hughes
Vídeo: Stars - De: "Os miseráveis"]  

Não sou digno
Do olhar daquela estrela.
Humildemente lhe imploro
Que desapareça;
Não que não o deseje com fervor
Nem suplique desde o íntimo por ele,
Mas porque, quando me olha,
Sozinha como está,
Seu brilho solitário, assustador,
Vai desbotando
As autoconvicções que insisto
Em cultivar.

Não sou digno, sequer,
Que, de relance,
Lance raios.
Ou que por descuido
Deixe cair pedaços de sua solidão
Profunda, encantadora.

Não sou digno
De tê-la em minha varanda
Mesmo que em desvario.
Por ser demais,
Mesmo que em desvario,
Ter uma estrela na varanda.

Não sou digno
De olhar aquela estrela.
Meu olhar,
Meu desejo fulminante de vê-la,
A empalideceriam
E ela deixaria de ser
A única estrela
Para ser a minha estrela,
Coisa que não mereço.

O céu,
Os outros olhos,
Merecem-na mais do que eu.

[Dos: POEMAS DO ESTOQUE]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

BANQUETE PRIMITIVO


[Imagem: Table - Salvador Dalí
Vídeo: Path - Apocalyptica]

Afasta-me desses talheres
De comer imprecisões,
Desses talheres de prata
Que se usa para apartar
Da carne mal passada da realidade
Dos ossos da dissimulação.

Comer com as mãos
É minha profissão.
Roer o fêmur da fantasia
Até chegar ao tutano
E, ao sugá-lo, sentir
O gosto de dois opostos:
Ilusão e palpabilidade.

A mesa posta,
As porcelanas raras,
Os guardanapos de fino linho oriental,
O copo em que o vinho coagula,
Não servem para mim.
Não fui educado para tanto.

Na hora de minha fome
Saio à caça;
Com os ratos em baldes de lixo,
Com os gatos em ninhos de pombos,
Como os cães à porta de açougues,
Com as sombras à sua hora sinistra,
Com outros homens que, como eu,
Só se alimentam de escassez.

Os miúdos da vida,
Se moídos,
Me são banquetes à falta de dentes.
O real, em matéria deteriorada,
Atiça meu apetite. Salivo;
Sobre a inexperiência abatida
Debruço-me, genuíno.
Descivilizado, esfomeado.
Um mamífero egoísta
Que enterra juntas loucura e lucidez
Para apreciá-las depois de decompostas.

[Dos: POEMAS  (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

AS RAZÕES DO CHORO



[Imagem: Ariadne - Herbert James Draper
Vídeo: Cry baby - Janis Joplin]

[O choro merece um tratado, contudo, não serei eu o atrevido].

Das diversas modalidades que presenciei, algumas se sobressaem. Assisti pessoas chorarem por descontrole, outras por se verem despojadas. Houve quem chorasse de emoção e quem inventasse emoções pelo prazer de serem vistos se derramando.

Quem chora por dores secretas merece o meu respeito. Os que não represam quando há motivo, nem constroem barragem para estancar a alma, esses são dignos de consideração. De uma comenda.

O choro é a primeira arma do ser humano, bem como chorar é a primeira língua que aprende. Talvez por isso as lágrimas sejam usadas por alguns como dialeto, por outros como forma de coagir.

Quis tocar no assunto para refletir sobre ele e me refletir nele, visto que quase nunca choro. Tal constatação soa aos mais precipitados como um defeito grave, prestes a ser uma falha de caráter. Quase nunca choro. Mas quando o faço, seco.

Parece-me que todo o líquido reservado vem ondulando desde os pés e arrebenta em tsunamis incontroláveis; e me parece também que quando isso acontece, choro o presente, o passado e todo o futuro de uma só vez. E me desembargo. Desalbergo demônios, desamparo autocomiserações e sinto que fui areado; e brilho.

Não me meço por estatura de força, tampouco considero um grande privilégio ser mais seca do que chuva. Creio que a natureza que me sustenta seja a de um cerrado, com mandacarus e árvores retorcidas; que é árido o quando pode e que se molha sempre que água lhe é ofertada.

Não considero fracos ou imberbes os que não se aguentam. Igualmente, não faço juízo da medida do que os leva ao pranto. Quem chora a meu lado não tem lágrimas solidárias de minha parte para acompanhar-lhe o coro, mas encontra dedos de secar olhos e peito como descanso de cabeça.

O choro é uma espécie de alimento ou de bebida dos quais se saciam, uns mais, outros menos, sem que gulosos ou abstêmios mereçam repreensão.

Um homem, quando chora, fica mais bonito. Já a mulher, essa deve ter cuidado. O choro feminino é um vestido de gala, um colar de diamantes, e não deve ser envergado, se não em ocasiões que o mereça.

Uma mulher que chora a partir do útero faz jus a ser coroada imperatriz. Por outro lado, as que se valem dos olhos para derramar futilidades, vestem sua melhor roupa, adornam-se das joias mais raras para fazerem feira num sábado sem sol. Desperdiçam a poção mágica justamente por utilizá-la indiscriminadamente; e o encanto se torna insignificante.

Mas não se privem de chorar. Menos ainda se sintam compelidos ao ato por conta dessas reflexões tão simplórias. Chorar é um direito que deve ser exercido segundo o arbítrio (ou quando o arbítrio não der conta de deter).

Quanto a mim, santifico as palavras de Caetano Veloso: “Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada”.

E quando não há jeito, desaguo de uma vez para secar o quanto antes. Poder sorrir ensolarado (ainda que o solo esteja ressequido e apenas os mandacarus floresçam).


[Das: CRÔNICAS DO DIA]

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

UM FADO


[Imagem: Caronte - Gustave Doré 
Vídeo: Foi Deus - Antônio Zambujo]

Fantasmagorias.
Luminescências.
É minha alma alçada ao topo do farol
Em chamas para o mar bravio,
Uma fina e brilhante mão de luz
Avançando contra as ondas para as velas distantes
Prontas a serem esquecimento, solidão e finitude...

Pousado no alto duma pedra imensa
Descansando de mim por um momento
Olho em derredor e só consigo enxergar
A cálida neblina, a vertigem e o distanciamento...

De longe tudo é longo.
Me faltam os caminhos
E me sobra desejo
De andar.

Alegorias
Iridescências
Opaco e oco e verdadeiramente duro
É o meu norte que não se apresenta adiante ainda.
E tudo finda...
E tudo se acaba, se limita, se elimina, se perde
Como a grande luz do farol
Contra o mar
Que vai e vai e vai
Até jamais ser vista
Até não existir
Até nunca ter existido...

Parece-me que tudo é desconhecido
E eu sou um desconhecido e eu mesmo me desconheço.
E então aprecio do cume da pedra
As estranhas maravilhas a me espreitarem.

Do alto o mundo é plano
E pleno de si mesmo.
Eu não o sou.
Curvo, sinuoso, alheio...

Um antigo farol que espera – aceso e teso – navios que não virão...

[Dos: POEMAS DO ESTOQUE
Escrito para o livro "A Minha Idade de Cristo"]

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AUTODEFESA


[Imagem: The hit - Frederic Leighton
Vídeo: Libertango (de Astor Piazzolla) - Yo Yo Ma]

Por vontade de ferir
Algo que fosse belo
Que desfilei em canteiros de lavanda,
Pisoteando-as.
De seus fluídos vitais
Fiz calçado novo.
Sapatos de verniz, lilases.

E para magoar ainda mais a perfeição
Semeei grânulos de sal
Em fazendas de conchas.
Quando choram elas
O mar escuma pérolas
E eu recolho em alguidares
Pétalas do que plantei.

Não bastasse o crime de admirar,
Quis corromper plenitudes.
Fui adubando cactos
Com pregos.
Para a rega dos algodoais
Escaldei em sol o leite,
Depois os assisti gritarem.
Os cactos pelas pontas,
O algodão, insulto branco
Para nuvens de tempestade.

Arrebatado pelo impulso de denegrir
A métrica das simetrias,
Desmenti-las,
Cevei milhares de borboletas
Quando ainda lagartas.
Quis envenená-las com tintas,
Aleijá-las de algum modo
Para que deixassem de ter
Cores inimitáveis.
Proporções impossíveis de equacionar.

Para macular tudo quanto doesse,
Tudo quanto arrebatasse
Pelo atrevimento da delicadeza,
Vazei meus olhos.

Neguei-me a ser humilhado
Por girassóis, quarto-minguantes;
A ter o olhar subjugado
Pelas simplicidades
Das quais sou completo ignorante.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

terça-feira, 19 de outubro de 2010

GÁS DO SONO


[Imagem: Auto-retrato com braço
- Gustave Courbet
Vídeo: Mercy street - Peter Gabriel]

Quero o gás do sono.
E um invento de sonho
Onde cavalgue animais magérrimos.

Caminhar num horto de abutres
De braço erguido;
Sem roupas ou pele.

A verdade é sempre muito cruel;
Põe no mundo filhos hediondos.

Vou estercar-me de ilusões
Para encopar.
Depois me podo
Como quem corta as unhas
Ou extirpa calos.

Quero um cilindro de gás do sono,
Um escafandro-âncora,
Um mar de plumas que me afoguem
De leveza.

Galopar no baio esquelético,
Em pelo.
E nu.
Até que reste apenas a carne viva
Das nádegas
E a fantasia me infeccione.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ASPIRAÇÕES MIÚDAS


[Imagem: Hector - Jacques-Louis David
Vídeo: Angelique Kidjo - Petite Fleur]  


Que eu fosse frágil.
Rosário com contas de barro
E ao ser desfiado
Concedesse dissolver
Em poeira e devoção.

Que eu fosse manso.
Planta que põe botões
Desarmada dos espinhos.
Tivesse a ventura de ser colhido
Por dedos enamorados,
Presenteado,
Antes de desabrochar.

Que eu fosse simples.
Tecido de chitão.
Dias bordassem em mim
Lantejoulas transparentes;
Brilhassem-me
Cores espelhadas.

Que eu fosse arco,
E não flecha.

Que eu fosse sede,
E não vício.

Que eu fosse viço,
E não cansaço.

Que eu fosse vívido,
E não ensaio.

Que eu fosse o absurdo que se arremessa
Do alto dos prédios em gotas verdes,
Congeladas.

Pudesse derreter nas mãos dos objetos.
Dos telhados, calçadas, dos postes de eletricidade.
Paredes, frestas e portas.
Irmanar-me de seus significados;
Renascer em musgo e recobri-los.

E sermos um, outros, novos.
Floresta rasteira, extemporânea,
Centenária desde o primeiro broto.

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

 

sábado, 16 de outubro de 2010

ÁGUA DEMAIS


[Imagem: Circe insidiosa - John Willian Waterhouse
Vídeo: Crossroads - Tracy Chapmam]

Não peça água demais
Para não afogar a aridez;
A aridez precisa purgar.

Palpite, mas não tanto,
Guarde algum solavanco
Para mancar.

Seja, se é o que quer,
O quanto queira,
O quanto aguente ser-sentir,
Na medida do que é teu.

Do contrário, nem deseje,
Nem se aflija.

Ao exagero, explode.

Mas não peça demais.
Não espere demais, além,

Viva com o que pode

E tem
E não tem.

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O LEÃO VELHO


[Imagem: Lion stalking - Herbert Thomas Dicksee
Vídeo: Old man - Lizz Wright] 

Arrasta os móveis a qualquer hora
O homem do apartamento acima.
É só e idoso.
Deve conversar com cadeiras
Quando a noite chega
E a televisão não lhe dá ouvidos.

Ouço-o tilintar em minha cabeça
Aquilo que penso serem seus sapatos,
Sua bengala ou sua solidão.

Eu mesmo caminho pela casa
Nas madrugadas.
Arrasto chinelos
Cujos sons abafados se parecem
Com a voz desconhecida
Daquele homem que não tem para quem dizer
Palavra.

Alguns metros nos separam,
Conquanto esses metros nos irmanem,
Visto que temos o mesmo cercado,
A mesma jaula para arrodear.
Somos leões domados
Girando em gaiolas similares.

Ele arrasta seus móveis
Na esperança de que acordem.
Eu embalo meu silêncio
Rezando para que adormeça.

Somos o mesmo tipo de bicho.
Separados por algumas décadas
E unidos pelo mesmo destino cativeiro.

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A LAVRA


[Imagem: The harvest - Camille Pissarro
Vídeo: Sodade - Cesária Évora] 

Capinava o mato da lavoura
Enquanto a erva-daninha
Me tomava.
A erva-cipó de querer
O que não sabia
Alastrada em lugar
Dos vasos sanguíneos.
Cortassem-me, seria capaz
De desfolhar pela ferida.

Entregava o lombo ao sol
Dos eitos plantados
Para que secasse a míngua
Meu horto de inquietações em sementeira.
E ele celebrava
Sua fotossíntese.

Até ceder.
Deixar o matagal tomar de conta,
Estando bastante para infestações.

Ultrapassei a cerca.
Desde então verdejo e contamino.

Longe da roça,
Longe da enxada,
Longe da raiz.

Mas sempre temendo que alguém descubra
Onde estou enraizado
E de um golpe só
Limpe a lavoura de mim.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]