"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

UM FADO


[Imagem: Caronte - Gustave Doré 
Vídeo: Foi Deus - Antônio Zambujo]

Fantasmagorias.
Luminescências.
É minha alma alçada ao topo do farol
Em chamas para o mar bravio,
Uma fina e brilhante mão de luz
Avançando contra as ondas para as velas distantes
Prontas a serem esquecimento, solidão e finitude...

Pousado no alto duma pedra imensa
Descansando de mim por um momento
Olho em derredor e só consigo enxergar
A cálida neblina, a vertigem e o distanciamento...

De longe tudo é longo.
Me faltam os caminhos
E me sobra desejo
De andar.

Alegorias
Iridescências
Opaco e oco e verdadeiramente duro
É o meu norte que não se apresenta adiante ainda.
E tudo finda...
E tudo se acaba, se limita, se elimina, se perde
Como a grande luz do farol
Contra o mar
Que vai e vai e vai
Até jamais ser vista
Até não existir
Até nunca ter existido...

Parece-me que tudo é desconhecido
E eu sou um desconhecido e eu mesmo me desconheço.
E então aprecio do cume da pedra
As estranhas maravilhas a me espreitarem.

Do alto o mundo é plano
E pleno de si mesmo.
Eu não o sou.
Curvo, sinuoso, alheio...

Um antigo farol que espera – aceso e teso – navios que não virão...

[Dos: POEMAS DO ESTOQUE
Escrito para o livro "A Minha Idade de Cristo"]

9 comentários:

Zélia Guardiano disse...

Agnaldo, meu querido
Poema de uma beleza ímpar!Questionamentos da vida, que a mim também me pegam, me agarram com unhas e dentes pontiagudos, afiados, verdadeiras navalhas e me deixam horas e horas sem reação. Quando me iludo pensando ter adquirido força para enfrentá-los, ai, que decepção: não os venço nunca...
Você, sim, sabe o que fazer com eles: este poema de profundidade incomensurável...
Grande abraço, amigo, todo preenchido de admiração

Eliane Furtado disse...

Estava lendo no seu blog o texto ao lado. "...não lastime...pode ser que o tempo ou a maresia tenham ofuscado o espelho."
Pois é Poeta, muitas vêzes os olhos ficam mesmo ofuscados.
Estava lendo a análise da querida Zelia e vejo como os poetas se entendem. Confesso que algumas vêzes -como hoje - leio e releio para ter a visão clara refletida no espelho. O bom é que consigo. Mas minha praticidade é que -vez por outra- ofusca meus olhos. Bom que passa rápido.
E como preciso de poesia. Uma boa sexta.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Zélia querida,

Pois te digo que você está enganada. Não sei; também não sei o que fazer quando a inânia diante das explosões sensoriais me ataca.

O que faço é tentar, tentar e tentar. Pelear com as palavras; escavo-as para que não me enterrem em ausência de significados. E vou tentando...

Às vezes sai, outras permaneço com as emoções entaladas, padecendo...

Mas de tudo, de tudo mesmo, o que é bom é estar bem acompanhado; é saber que seus olhos percorrem meus textos e me fazem companhia. Grato, muito grato.

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Eliane querida,

Zélia é generosa e tem o olho acurado; consegue encontrar beleza onde ela tenta se esconder.

E você, minha querida guerreira, que tenta se proteger por detrás de sua praticidade, é um oásis de percepções, emoções e delicadeza.

Creio que quando olha no repetidamente no espelho não é para tentar que seus olhos estejam nítidos, mas para melhor enxergar seu próprio reflexo, cuja luz é capaz de ofuscar.

Super beijo. Super beijo.

Lara Amaral disse...

Esse fado caiu-me como uma luva.

Grande escrito, Agnaldo!

Beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Oi Lara,

Pois, olha, foi Deus... (Com bem diz o título do fado).

É lindo mesmo, e a interpretação de Antônio Zambujo deixa-o indispensável.

Super beijo.

Wanda disse...

Encontrar teu blog nesse momentofoi um presente de Deus.
Para alguém que como CFA "se sente cada vez mais estrangeiro", ler esse FADO encheu-me a alma de alento.
Parabéns... Obrigada pelo presente.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Wanda,

Eu é que agradeço. Agradeço pela presença, mas especialmente por não ter se acanhado e soprado sobre o espelho para escrever sua mensagem com dedos tão gentis. Senti-me baforando nesse mesmo espelho para melhor enxergar a generosidade cuidadosa de suas palavras.

Que bom que o fado tenha conseguido embalar sua alma. É para isso mesmo que tem de servir, para fazer com que as pessoas que olham no espelho encontrem alguma luz, quiçá a luz do próprio reflexo.

Pois, olha, a casa está sempre aberta. Sempre. E sempre tem melancia na geladeira, chá de hibisco fumegando, lavanda nas janelas e um coração receptivo aos andarilhos que por aqui passam. Entre, entre quando quiser. Abra gavetas, percorra os cômodos e se sinta acolhida, porque é assim que se constroem intimidades.

Bem-vinda,

Super beijo.

Wanda disse...

Agnaldo... Obrigada pela atenção no carinho da resposta. Bjao.