"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AUTODEFESA


[Imagem: The hit - Frederic Leighton
Vídeo: Libertango (de Astor Piazzolla) - Yo Yo Ma]

Por vontade de ferir
Algo que fosse belo
Que desfilei em canteiros de lavanda,
Pisoteando-as.
De seus fluídos vitais
Fiz calçado novo.
Sapatos de verniz, lilases.

E para magoar ainda mais a perfeição
Semeei grânulos de sal
Em fazendas de conchas.
Quando choram elas
O mar escuma pérolas
E eu recolho em alguidares
Pétalas do que plantei.

Não bastasse o crime de admirar,
Quis corromper plenitudes.
Fui adubando cactos
Com pregos.
Para a rega dos algodoais
Escaldei em sol o leite,
Depois os assisti gritarem.
Os cactos pelas pontas,
O algodão, insulto branco
Para nuvens de tempestade.

Arrebatado pelo impulso de denegrir
A métrica das simetrias,
Desmenti-las,
Cevei milhares de borboletas
Quando ainda lagartas.
Quis envenená-las com tintas,
Aleijá-las de algum modo
Para que deixassem de ter
Cores inimitáveis.
Proporções impossíveis de equacionar.

Para macular tudo quanto doesse,
Tudo quanto arrebatasse
Pelo atrevimento da delicadeza,
Vazei meus olhos.

Neguei-me a ser humilhado
Por girassóis, quarto-minguantes;
A ter o olhar subjugado
Pelas simplicidades
Das quais sou completo ignorante.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

6 comentários:

Eliane Furtado disse...

Muito bonito estes versos. Muito mesmo.
Ando assim - me defendendo. Quieta.
Bom dia Poeta. Estou em paz, firme, seguindo sempre. Uma linda quinta e proveitosa.

Neuzza Pinhero disse...

Você jamais será humilhado por girassóis ou quarto-minguantes, poeta. Não vaze seus olhos.
É preciso enxergar os desdobramentos das coisas, o "algodão, esse insulto branco";
que forte, isso...
as borboletas, assim com descreve, com suas cores inimitáveis, ..."para macular tudo quanto doesse/tudo quanto arrebatasse/pelo atrevimento da delicadeza..."
Vc fala da gratuidade da beleza que grita ainda, essa beleza que arde nos olhos, e que vai se exaurindo pela ausência total de delicadeza desses Homo insanus"
Ninguém disse que era fácil ser poeta...beijos, querido Agnaldo
Só Piazzolla com seu Libertango,
Piazzolla eterno

Lara Amaral disse...

Há coisas insuportavelmente lindas, das quais mal conseguimos chegar perto. Mas não se acanhe, sua poesia é dessas maravilhas.

Beijo!

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Eliane, Eliane,

Você não é do tipo que deva ficar quieta em algum canto, se defendendo. Você é "da pá virada", mulher.

Então, se precisa desse intervalo eu o concedo (hummm, notou o poder?), mas que seja breve. Nada de caverna, nada de concha.

Seu negócio é brilhar.

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Neuzza querida,

Ninguém me preveniu, talvez por isso me assuste tanto e tanto me comove com tudo que é belo e não custa, não tem preço médio nem ações na bolsa.

A beleza gratuita é digna de ser machucada com os olhos, até se gastar (ou até que eles se gastem).

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Lara,

Ganhei o dia!

Ao ter meu poema comparado às belezas gratuitas, coletivas e disponíveis, a conta bancária de minha alma acertou na mega-sena acumulada.

E você me deu o prêmio.

Super beijo.