"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O DUELO


[Imagem: Wrestlers -Thomas Eakins
Vídeo: A tanto duol - Do filme: O mestre da música]

Nos tendões resilientes se adensa a gravidade;
Para baixo, maças e alteres e âncoras arrastam.
Fibra após fibra arqueia a superfície da atmosfera
Em órbitas geocêntricas de se autoconsumirem.

Pisasse em gigantesco platô de puro mármore o marcaria
Com exuberantes pegadas; faria, de rastros, um desenho
Que em linha reta seria capaz de parecer com um alinhavo,
Delicadamente bordado na bainha pedregosa.

Mas o mármore deu lugar ao charco, assim como o platô,
Que fez-se, de acanhamento por tanta densidade, rente ao chão.

Atração magnífica que a terra exerce sobre os corpos,
Essa que traz o universo e o dependura na ossatura,
Fazendo rangerem alto as articulações, comprimirem-se os nervos.
Atração que impede a água de flutuar, os homens de serem vento.

Há dias em que a Via-Láctea ancora na planta dos pés,
Grativam, o ânimo e a determinação, próximos a buracos-negros.
Há dias em que a pele transpira correntes, e os cabelos,
Lisos ou em anéis, ganham matéria de lingotes ou de dormentes.

Há dias em que a massa orgânica cede ao assédio mineral
Para dar conta do peso que se lhe avoluma; cede ao bronze, ao granito.
Convergem do imo ondas de magma, nuvens de cinza radioativas.

Nesses dias se conhece de que substância é feito o homem,
E se separa, pela ação voraz dos elementos, os que derretem
Dos que se permanecem intactos – colossos metálicos,
Concebidos na forja das vicissitudes, de estar vivo e de pé.

Nesses dias carvão vira diamante. (Ou é absorvido pelas profundezas).

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

sábado, 27 de novembro de 2010

A INVASÃO DAS ESTEPES


[Imagem: Atlas holding up the celestial globe - Guercino
Vídeo:  My immortal - Evanescence] 

Sentimentos desterrados me margeiam,
Pedem asilo e denunciam o fim da marcha.
Vão, de certo, invadir-me o campo de trigo,
Acampar em meus arrozais floridos,
Vão fazer asseiro nos limites do piquete
E lançar fogo no chão onde brotava a perfeição.

Sentimentos aflitos em procissão,
Descem por ruas esburacadas carregando lamparinas.
Rezam, mas se rezam nada dizem,
Porque os ouço clamarem no mais absurdo silêncio.

Sentimentos famintos e necessitados, em andrajos,
Assomam à minha porta e batem.
Quando os vejo pelas frinchas, por entre tábuas,
De tão magros e frágeis que me parecem,
Tenho a impressão de que seriam capazes de se esgueirar
Por qualquer pequeníssima abertura.

Sentimentos exilados por serem feios ou fortes,
Sentimentos expulsos por seu peso ou suas marcas,
Em bandos, celebrando acordos para o motim,
Achegam-se uns dos outros e dão-se as mãos.
Repicam no assoalho seus incontáveis calcanhares
Fazendo ecoar dentro de mim a orquestra de tambores.
Anunciam formalmente para o que vieram.

Sentimentos renegados, dados à adoção,
Abandonados em cestos de vime, sob portais alheios.
Sentimentos órfãos; pensava que pudessem ter sido levados
Para o trabalho escravo num outro país.
Voltam agora, macérrimos, porém crescidos,
Armam suas tendas, hasteiam suas flâmulas rotas,
E para me manterem constantemente desperto
Gritam em coro: pai, pai, pai, pai, pai.

[Jamais voltarei a dormir].

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ESCALENO


[Imagem: Gymnast - Eugène Fredrik Jansson
Vídeo:  Hard times come again no more -
James Taylor e Yo Yo Ma]

Mandacaru no centro do cerrado bebe quentura.
Se lhe cortarem um braço vai gosmar sangue, transparente
Como um raio de sol ao meio dia no centro do olho.
Eu me abraçaria a um mandacaru enorme
E faria sexo com ele
E teríamos um filho cujo nome doeria:
Silêncio.

Cerca de arame farpado se enfeita de cabelos.
São lembranças dos bois brabos que se enamoram dela.
Limpá-la seria o mesmo que rasgar as cartas de seus romances.
Eu arranharia numa cerca as minhas costas
E deixaria a minha carne
Se ela me quisesse
Ao invés dos bois.

Caraguatá abre as pernas para água de chuva.
Fica lubrificado e deixa escorrer até o chão seu gozo,
Colhendo só o que lhe cabe nas entranhas.
Eu dormiria nu sobre o caraguatá em flor
E ele me faria ouriço de seu amor,
Beijando-me, pontiagudo,
Cada centímetro.

Serpente de brejo incendeia a tarde com seu bafo.
Houvesse fagulha diante de si implodiria em brasas, carne e peçonha,
Porque de gás são feitas serpentes tristes que vagueiam brejos.
Teria parido uma serpente de minhas entranhas
E ela por certo seria a parte de mim mais branda.
E o meu nome e o seu nome ainda seriam um só:
Solidão.

 [Dos: POEMAS DO ESTOQUE]

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PRÓTESE-CAJADO


[Imagem: Stud of male nude - David Davies
Vídeo:  Cruzada - Boca Livre e Renato Braz]

Deus me deu esse cajado
Com o qual sulco.
Ele me sustenta.

A aparência equilibrada
Resulta do exercício
De transformá-lo em membro.
E assim tenho
Um braço mais longo,
Que é parte vivo
E parte madeira imaginária,
Embora não se denuncie como tal.

Para me manter ereto
Escoro minhas incertezas
Nas palavras.
Elas suportam
Seu peso.

Quando Deus mo deu,
Por certo não sabia
Que eu o mimetizaria.
Quando Deus mo deu
O fez
Mais por piedade que por bênção.

Meu cajado vernacular,
Escasso e raso,
É o que impede que eu rasteje.
Que eu me torne um réptil
E jamais volte
A ficar de pé.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

UM CRIME DELICADO


[Imagem: Birdcage - Nicoletta Ceccoli 
Vídeo: Je Crois Entendre Encore -David Gilmour]

Ter uma gaiola de ouro
Para um canário raro
Cujo canto alegraria toda uma aldeia.

A gaiola cerrada
Coberta por encarnado tecido
E o canário dentro dela
Sem ouvintes, sem ouvidos
Para beberem de seu delicado bico
Uma nota sequer.

***

Muito ingenuamente tateio
O veludo carmim de minhas dúvidas.
Como se tudo soubesse e tudo ignorasse por completo
No momento seguinte da palavra.

Acossado, suspeito e já admitindo a culpa.
Um gato ladino, um felino perfeito
Auscultando os movimentos
Tristes ao fundo da gaiola,
E ronronando seu desejo desde o estômago,
Faminto de muito mais,
De muito além da carne,
De muito além da beleza,
Faminto do canto e da tristeza aprisionados do canário.

***

Os versos que escondo...

***

São douradas as barras
Que sustentam a gaiola e a tornam gaiola?
É, de fato, um canário raro
Ou somente uma ave canora de terceira grandeza
No firmamento dos pássaros perfeitos,
Essa ave?
Há um felino ladino pronto a saciar sua fome visceral
Ou é apenas fome passageira
De um bichano velho
E sem dentes?
É carmim o tecido
São de veludo minhas dúvidas
Ou ambos são farrapos,
Fantasias, croquis,
Rabiscos e ilusões?

***

Os versos que escondo...

***

Por amor.
Cruel, egoísta e profundamente covarde.
Pavor e frenesi,
Desespero, apego, dúvida e desconfiança
De que não haja canário
De que não seja raro
De que não haja gaiola
De que não seja dourada
De que não haja tecido
De que não seja carmim
De que não sejam nada
Os versos que escondo...

***

Desde o alçapão que o prendeu
Até a mão que o alimentou
E os grãos dos quais comeu
Com vontade e servidão,
Tudo pode ter sido
Imaginação fugaz...
Desde o gato,
Desde o tecido,
Tudo o que foi construído
Pode não ter sido,
Jamais...

***

Os versos que escondo...

***

O preço da redenção é a assunção da culpa
Para o pecado planejado e inevitável...
Os versos que escondo,
Os escondo,
Como a um pássaro encantado
Para o qual não tenho olhos,
Para o qual não tenho ouvidos,
Só sentimentos em chamas
Prestes a darem vazão
A um crime delicado.

Com a mão – e só com ela,
Sem olhar – tateando,
Desfraldo o rubro tecido,
Abro a fechadura dourada
E me detenho no momento fatal
Como um gato prestes a saltar...
Estaco, titubeante e fraco,
Ignorando por completo
O irrevogável destino da mão:
Sem ter certeza se o solto
Ou se, por suave compaixão,
Rompo seu fino pescoço,
Silencio de vez
Seu canto
Sem ouvinte...

***


[Dos: POEMAS DO ESTOQUE]

[Um adendo (coisa que normalmente me recuso a fazer): Escrito originalmente par ao livro "A Minha Idade de Cristo - Poemas crucificados e poemas ressurretos". Resisti a publicá-lo por muito tempo. Hoje ele me pegou de jeito e não houve como me esquivar. Ele mandou, eu obedeci (como sempre o faço, aliás) Creio que a concessão se deve ao fato de seu sentido ter esmaecido com a criação de >NO ESPELHO<, mas nunca saberei ao certo, por isso cedi. E se posso pedir algo, me permitam, peço: ouçam a canção. Ouçam-na.]

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ÊXODO


[Imagem: Winter - Thomas Eakins
Vídeo: Another suitcase in another Hall - 
De: T. Rice e A. L. Webber - Trilha do filme "Evita"]
   
Quando o espaço se encolhe
Para dentro
E o pássaro se torna gaiola
Dele mesmo;
Perguntas tragam
O silêncio para si
E num turbilhão de folhas
O vento ecoa, lamenta.

Quando a água não suporta
A leveza e se permite ao frio,
Lacrimeja o firmamento
Diamantes de granizo.
E os homens juntam
Joias imprescindíveis,
Emendam-nas, rosários,
Ou tiaras ou gargantilhas.
Ornam-se de brilhantes
Que se derretem.

Quando o tempo retrocede
Em desfavor,
Marcha, de costas,
O batalhão de horas e minutos
Ao som de tambores.
Aplainam-se os precipícios,
Nivelam-se os montes,
Tac-tiqueiam os relógios
Dos pulsos e das catedrais,
E os corações repicam
Descompassos.

Quando o fumo essencial
É dissipado a sopro,
E se dança tangos com colapsos.
Quando estátuas enraízam
Em jardins de mármore
E florescem, travertinas.
Gárgulas fazem ninhos
E chocam
Pedras de amolar.

Quando o signo deletério,
Capricorniano,
Das revoltas sem remorso e sem virtude,
Causa calafrios.
Inquietações secas e desérticas
Vêm se alojar,
Eu migro para fora.
E de lá observo o pau-de-arara
Levar para o sul a minha paz,
Repleta de esperanças
Pluviais.


[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]


 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

HABEAS-CORPUS


[Imagem: A lily - Eugène Fredrik Jansson
Vídeo: Primitive - Annie Lennox] 

Fende pedras,
Calçadas;
Porque tem força
O que é para ser,
E se rebela ao claustro
Irremediavelmente.

Não se detém.
O peso da terra,
A agressão úmida,
O concreto armado
Como lápide.
E a semente urge.

Não para
O que tem de ser.
Não pede arrego.

A flor arrebenta o cimento
E cresce no imponderável,
Manchando de beleza
Todas as contrariedades

A flor vinga,
A flor prova
Que para o que há de ser
Não há freio.

Não se amestra
O que nasceu
Para ser livre.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

sábado, 13 de novembro de 2010

PRECE A UM ARÍETE


[Imagem: Sea boots  - Andrew Wyeth
Vídeo: Vertigo - U2] 

Quanto mais me benzo,
Menos me defendo.
Tende piedade
De minha cabeça a prêmio.

Muralhas claustrofóbicas que ergui
Para defender-me dos saqueadores.
De nada serviram,
Vez que tenha sido despojado.
Minhas bolas de gude,
Meus estilingues precisos
Tomados à força
Pelas falanges da idade.

Tende piedade
Pelo sono que dormi
Para crescer.

Árvores que escalei
Tornadas em lenha e cinzas.
Estradas de terra
Que se foram, em piche sufocadas.
Córregos onde minhas peneiras garimpavam
Peixes e resfriados,
Servem de canais para o esgoto
De recordar.

Enquanto golpeia,
Tende piedade
Por ter permitido que paredes gigantescas
Me separassem de minha história.

Tende piedade,
Mas bata!
Tende piedade
Sem deixar de arremessar
A sua cabeça contra a minha cabeça.

E na hora derradeira,
Que sucumbamos juntos
Sem ter esquecido.

Sem ter renegado nossa natureza.

[Dos: POEMAS DO ESTOQUE]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O MERGULHO


[Imagem: Starry night over the Rhone - Vicent Van Gogh
Vídeo: Unther the bridge - Red Hot Chili Peppers]

Desço com os olhos os metros restantes da Avenida Ivo Silveira; sem demora transpasso o muro de flandres que a protege e alcanço a ponte. A velha Hercílio Luz. Talvez esteja descalço, por isso a sensação de tábuas, metal e ferrugem.

É noite como quase sempre. Apresso-me até o ponto onde a primeira coluna metálica ascende; e a escalo. Subindo, e sem ofegar, como seria de se esperar em uma escalada ocular. No topo a luz vermelha. O rubi que eu desejava. De um lado a ilha pulula lâmpadas, carros, silhuetas de concretos piscando olhos amarelados. No oposto, minha varanda acesa e nela o vulto com sua camiseta branca.

Fui até lá para enxergar do alto as sutilezas que se amoitam na claridade. O dia costuma lhes ser fatal. Somente as asas do grande  corvídeo, que emplumam ao poente fazem, a exemplo de uma rega, tais clandestinidades florescerem.

Não fosse pela ignorância estaria condenado à burocracia das mediocridades. A enxergar no raso e na superfície. Mas desconhecer me salva. Restitui a inescrupulosa aura infantil. A que não teme, porque não sabe.

Eu dizia do que experimentava ao alto da ponte. E retomo. De lá, do cume, me olho na varanda metido na roupa branca e percebo que, ao olhar, cruzo com o facho dos olhos do outro. Esse eu da varanda, que me dispara de volta dardos em sua mirada. Entreolhamo-nos como estranhos íntimos, e não desviamos. Por instantes permanecemos enamorados, cobiçando segredos um do outro.

Ele descobre que sou amante da noite. Isso no relance inicial. Mais, mais, descobre que a traio com a baía. Eu o percebo devoto dos barulhos ralos; que os assiste em seus leitos até que estejam muito fracos para resistir ao sono.

No fim, já seduzido por seu destemor de alturas e pelo belo rubi com que me quer presentear, peço que desça para me ver de perto. Não responde. Nota, por certo, o vazio devastador que nos separa. E em isso constatando, põe de volta em seu cetro o mimo escarlate que me traria e num voo elegante e antigo, mergulha. Bate no plaino d’água e desaparece.

Formam-se anelos líquidos em redor do impacto; eu contemplo. Abismado. Enquanto meus olhos se afogam na baía, coroados pelas auréolas das luzes que reverbera.

E a noite segue. E a água se assenta. E a calma nos traga. Meu olhar, absorvido, repousa nalgum ponto no fundo desse mar.

A ponte, se pudesse, teria se atirado à esperança do resgate, tentando trazê-lo à tona. Como não pode se limita a soluçar. Soluça ferro. A ferrugem cai feito orvalho acobreado.

Eu, de onde a vejo, agradeço. Agradeço pela imobilidade, por deixar meus olhos descansarem.

[É certo que estava descalço, pois, sequer os chinelos boiam].

[Das: CRÔNICAS NOTURNAS]

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

BORBOLETAS VIOLADAS


[Imagem: Not yet - Maggie Taylor maggie
Vídeo:  Nothing else matters -  Apocalyptica]

À luz
O oculto evapora.
A face demaquilada do mistério
Mostra rugas cotidianas.
Bachianas calam
Para assistir
Simulacros conhecidos.

Pode voar
A borboleta que tenha
Como espinha
Um alfinete de costura?

Um homem,
Discípulo de borboletas,
Alberga inúmeros perigos.
Um deles: lagartear para dentro,
Comer a própria flora.
Outro: panapanar-se
Até desconhecer a individualidade.

Quando o sol
Arreia o infinito e monta,
Segredos fenecem na sela
Em autocombustão.
É a luz atômica
Que faz com que desapareçam.

Pode, uma borboleta,
Se violada,
Pôr ovos em leitos de capim?

Pode! Desde que se saiba:
Nascerão taturanas,
E essas, em seu tempo,
Encasularão pólvora alaranjada
E cobrirão de fogo o campo
Quando baterem asas.

Ao primeiro brilho
Nada do que se esconde sobreviverá.

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

terça-feira, 9 de novembro de 2010

LUZ-MORENA


[Imagem:  Ripples on the ocean - Vladimir Kush
Vídeo: Sleeping Sun - Nightwish]

Preparo a madrugada
Com lúmen

Para o anjo iniciante
Que descerá descosturá-la.
O sol por entre a brecha feita
Há de ascender

Areio auroras
Com as cinzas do que foi

Noite antes
Noite em mim
Noite acima e além das certezas

Areio
Como as mulheres
Que lavam panelas na beira dos rios.
Brilham, aluminam manhãs-caçarolas
Auroras areadas

A madrugada pronta
Boceja
Adormece cintilando
Estica a mão
Para depois do cobertor
E toca os dedos do dia

Faz-se o momento
Em que se enamoram
E suas mãos
Unidas
Emendam dois mundos:
Nasce luz-morena

Como deveria ser
Filha do dia e da noite
Luz-morena
Genes de pai e de mãe

E a madrugada se recolhe de seu parto
Deixa que o macho cuide da pequena
Menina que enquanto cresce
Cada vez mais se parece
Com ele

Preparo a madrugada
Com lúmen
Para parir
Uma filha
De cada vez

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

SIAMESES


[Imagem: Study for phantastische jagd  - Franz von Stuck
Vídeo: Ilusion - Marisa Monte e Julieta Venegas]

Sinto o mundo
Como se não tivéssemos pele,
Eu e ele
Fôssemos escalpo
De corpo inteiro.

Por vezes ele pedra,
Áspero, granita;
Outras sou eu,
Friccional,
Quem o atrita.

Por sentir assim,
Irmanado de aflições
E de delícias,
É que não cicatrizo.

Partilhamos única epiderme;
Não há cura,
Nem bálsamo.
Apenas sensações.

Sensações em carne.

Com mel e cal
Nos vamos medicando.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

sábado, 6 de novembro de 2010

O SONO DO MEU AMOR


[Imagem: Woman with a candle - Godfried Schalken
Vídeo: Haja o que houver - Madredeus]

Digamos que tivesse de deixar um bilhete afixado no espelho do banheiro, explicando minha ausência no restante de sono da manhã, esse bilhetinho seria assim:

“Eu não suportei permanecer ao seu lado. Acordei tomado pelo arrebatamento diário e decidi que não ficaria ali. Mas saiba, não foi uma decisão rápida, fútil ou fácil; rolei antes, para lá e para cá. Chamei pelo sono, fiei um terço, contei um curral inteiro de ovelhas, cheguei a cogitar algum “tarja preta”. Fui vencido. Não suportei e, envergonhado, confesso.

Saí pé ante pé, macio como um gato que estivesse à espreita do canário, e justamente por isso, por me sentir à espreita, foi que me atirei para fora da cama, abri a porta e te deixei ficar.

Não se zangue comigo, porque sou um fraco. Um completo fraco; homem que não suporta.

Ei, ei, espere! Eu ainda não terminei. Creio que você mereça alguma explicação. Pois que seja:

Eu não suportei estar privado de seus olhos, mesmo que por instantes. Juntem-se o céu e o mar, façam complôs com todos os azuis da terra, ainda assim não serão páreo para esses faróis de safiras que você ostenta dentro das órbitas. Esses faróis que me conduzem ao núcleo da paz, que também deve ser azul, em vez de branca.

Eu não suportei a distância imposta pelo seu descanso. Ciúmes de seus sonhos, ciúmes dos lençóis, inveja mortal do travesseiro. Desejo de sê-los. Pluma, algodão, delírios inéditos. Tanto, tanto, tanto desejei poder me transformar, mas, não. Carne, osso, erupção é o que sou, e continuo.

Feito um gato, como já disse, te espreitei. Queria ronronar, lamber, esfregar-me na sua pele; e sua mão? Ah, o arrepio. Um gato arrepiado desde a calda até as orelhas eu seria, e feliz. Feliz.

Houve momento em que tive medo mortal. Pavor de não ser capaz de conter pesadelos ou de, por descuido, fazer algum barulho que pudesse interromper a beleza pousada em seu rosto. Essa borboleta... Encontrou a açucena rósea de seus lábios e foi beber. E era tudo tão pacífico, perene e restaurador, que tive medo de quebrar.

Entende agora por quê te deixei dormindo e vim me prostrar aqui, do lado de fora do quarto? Para que você descanse por alguns segundos do meu amor arrebatado; para que minha devoção não comprometa as paisagens paradisíacas por onde corre dentro de seu sono, e para que meu instinto de abraçar, beijar e proteger não se torne o sino da manhã.

Durma, então, que permanecerei aqui. Sou o seu lanceiro. Guardo a entrada de seu palácio. Sem elmo, sem armadura. Armado com a lança de fogo da paixão.

Mas, veja, não durma tanto mais, porque a determinação que me acometeu ao acordar, mal suporta o término dessas linhas. E, quer saber? Seu tempo acabou! Acorde! Que eu já não aguento esses minutos de saudade”.

[O bilhete não foi necessário. Tampouco precisei explicar ausência alguma. Eu estava lá quando acordou; olhando. Admirado como todos os dias].

[Das: CRÔNICAS DO DIA]