"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O DUELO


[Imagem: Wrestlers -Thomas Eakins
Vídeo: A tanto duol - Do filme: O mestre da música]

Nos tendões resilientes se adensa a gravidade;
Para baixo, maças e alteres e âncoras arrastam.
Fibra após fibra arqueia a superfície da atmosfera
Em órbitas geocêntricas de se autoconsumirem.

Pisasse em gigantesco platô de puro mármore o marcaria
Com exuberantes pegadas; faria, de rastros, um desenho
Que em linha reta seria capaz de parecer com um alinhavo,
Delicadamente bordado na bainha pedregosa.

Mas o mármore deu lugar ao charco, assim como o platô,
Que fez-se, de acanhamento por tanta densidade, rente ao chão.

Atração magnífica que a terra exerce sobre os corpos,
Essa que traz o universo e o dependura na ossatura,
Fazendo rangerem alto as articulações, comprimirem-se os nervos.
Atração que impede a água de flutuar, os homens de serem vento.

Há dias em que a Via-Láctea ancora na planta dos pés,
Grativam, o ânimo e a determinação, próximos a buracos-negros.
Há dias em que a pele transpira correntes, e os cabelos,
Lisos ou em anéis, ganham matéria de lingotes ou de dormentes.

Há dias em que a massa orgânica cede ao assédio mineral
Para dar conta do peso que se lhe avoluma; cede ao bronze, ao granito.
Convergem do imo ondas de magma, nuvens de cinza radioativas.

Nesses dias se conhece de que substância é feito o homem,
E se separa, pela ação voraz dos elementos, os que derretem
Dos que se permanecem intactos – colossos metálicos,
Concebidos na forja das vicissitudes, de estar vivo e de pé.

Nesses dias carvão vira diamante. (Ou é absorvido pelas profundezas).

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

8 comentários:

Lara Amaral disse...

Uau! E eu querendo saber do que sou feita... lendo isso, tudo vira anti-matéria.

Perfeito!

Beijo.

Zélia Guardiano disse...

Maravilha, meu querido Agnaldo!
Maravilha!
Você não imagina a honra que me dá, ao dizer que nossos poemas dialogam...
É extraordinária a força de seus versos!
São de uma beleza ímpar.
A despeito do peso do especial tema, as palavra flutuam...
Grata, amigo, por mais esta oportunidade de excelente leitura!
Imenso abraço!

Eliane Furtado disse...

Achei bonito também vc falar que os poemas de Zelia e os seus dialogam. Vi lá no blog dela.
Apesar de fazer poesia e lindos versos, também acho que nosso dialógo é mágico.
Estou de volta. E daqui a pouco vou de novo. Mas não esqueço meus parceiros. É a trégua de dezembro!

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Lara,

Anti-matéria, matéria-prima... Somos feitos de várias coisas, mas nenhuma delas nos define tão bem quanto a ausência de todas... A anti-matéria.

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Zélia querida,

Os diálogos acontecem independentemente de nossos planos. Parece que os poemas combinam entre si e quando menos esperamos eles se entendem, falam, se completam...

Flutuam, flutuam mesmo... Você tem razão...

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Eliane querida,

O diálogo, em verso ou prosa, vai estreitando a intimidade da alma...

Que bom que você volta, sempre volta... E eu sempre a espero, ansiosamente.

Super beijo.

Neuzza Pinhero disse...

Via-Láctea ancorada na planta dos pés...
somos assim, tragicamente matéria
finita, inventores de outras leis
a nos manter seguindo até virar estrela, voltar ao eterno.
Poeta, poeta, te ler é uma grandeza.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Neuzza querida,

Olha, faço minhas suas palavras e afianço novamente o que sempre digo: "te ler também é uma grandeza!"

(Estamos, então, empatados. Que bom que seja assim).

Super beijo.