"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

sábado, 4 de dezembro de 2010

CHÃO DE PÉROLAS


[Imagem: The jewel case - Guillaume Seignac
Vídeo:  Meu fado meu - Mariza]

Deitaste ao chão tuas lágrimas salgadas
Para regar as rosas de meu caminho.

Eu te deitei pérolas.

Colheste ao campo os delicados lírios do oriente
Com os quais me perfumaste os pés.

Eu te colhi âmbar.

Roubaste palavras novas para brilharem
Na escuridão de minhas angústias.

Eu te roubei brilhantes.

Trouxeste mãos clementes, olhos mansos e suaves
Para fitarem o fundo de meus olhos vermelhos.

Eu te trouxe rubis.

Foste o fértil vegetal, a árvore cuja sombra
Tomou de meus ombros o cansaço.

Eu te fui o aço.

Tu me levaste pela mão com a pressa dos famintos,
Arrastando-me por jardins e lamaçais
Onde, não sei...
Atrás de mim os meus rastros, mas só os meus,
As tuas pegadas, não as reconheço mais.

Tu me deste de beber de teu leite sagrado,
Levaste de meu corpo o grosso sangue e o suor,
A mocidade...
Sinto, então, o peso do teu corpo no meu corpo,
Nosso universo expansivo, mais e mais fundo, muito maior.

Plantaste estrelas mansas em meus sonhos infantis
Para que eu forjasse delas douradas esperanças.

Eu te plantei ouro.

Esta sempre foi a minha resistência, é bem verdade,
A minha teimosia, é bem verdade,
A minha confissão de culpa, a bem da verdade,
E a minha profissão de desespero e fé, minha verdade
Hasteada, visível, porém discreta.

Bem me lembro que no dia derradeiro em que nasci
Assim se fez, (e se repete):
Varri as folhas e juntei os ciscos,
Afastei safiras das garrafas que os embriagados
Atiraram contra as pedras e contra a noite,
Rastelei as algas, companheiras da maré,
Soprei todas as impurezas da areia
E antes que amanhecesse
Semeei pérolas ao chão.

Veio o sol ver o ladrilho que te fiz,
Quedou-se envergonhado, recuou.
Durante todo aquele dia
Choveu.

(Desde então chove,
Desde então resistimos e pisamos, delicadamente,
Nosso chão de pérolas
Molhadas)...

[Dos: POEMAS DO ESTOQUE]

10 comentários:

Zélia Guardiano disse...

Meu Deus, que encanto: nosso chão de pérolas molhadas...
Poema, meu querido Agnaldo, daqueles que a gente quer ler, reler, ler de novo.
Tem sido assim, aqui, comigo: li várias vezes e, terminado este meu modesto comentário, vou ler novamente.
São muito lindas as imagens que você criou: essa preciosodades, esses nomes sonoros...
Tudo, enfim, encantador, neste seu trabalho, que , aliás, não poderia ser diferente...
Abraço apertdo, amigo, grande poeta!

Vera do sulllll disse...

Boa tarde grande poeta!
Fico quase sem ar ao ler, reler o que escreves. Este poema é romantismo na veia....
Lindo.Lindo.
bjs.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Zélia, Zélia...

Você depreende os sentidos mais íntimos; capta o momento imóvel em que toda a ação é suspensa e restam apenas as palavras, flutuando no umbral entre o existir e o imaginar.

E sua habilidade de decifrar os signos me encanta. Encanta por várias razões, mas principalmente pelo fato de que me mostra sentidos sobre meus versos que eu ainda não conhecida.

Que bom que você está sempre por aqui. Isso me anima, me enche de força e faz com que tenha vontade de vencer o cansaço, os afazeres, e me entregar à poesia.

Volte sempre; leia o quanto quiser... Você já tem as chaves da casa.

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Vera,

Recobre o ar, respire e aproveita na veia os versos...

Sabe, depois que você me disse que sempre passa por aqui (independentemente de comentar ou não) eu, inevitavelmente, penso em você quando posto...

Fico pensando, será que ela vai comentar esse? rsrsrsrsrs... É um sentimento infantil, eu sei, mas é assim mesmo que acontece. rsrsrs...

Obrigado por vir novamente (e falar).

Super beijo.

Lara Amaral disse...

Chão de misturas preciosas e indissolúveis.

Beijo!

Neuzza Pinhero disse...

meu querido ourives, pescador de rutilâncias no avesso das montanhas
ppolindo sempre as nossas almas
Viva!

Eliane Furtado disse...

Eu já cheguei animada com o título. que coisa mais linda. Depois li o poema, fiquei refletindo. Adorei a imagem e a música.
Este Agnaldo Poeta eu gosto muito. De versos simples e encantadores.
Bom semana e saudações...tricolores!

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Lara,

Pise, desfile, aproveito o quanto quiser. O chão não é só meu...

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Neuzza querida,

Espalhei pérolas ao chão para todos quantos quiserem pisar sobre elas. Caminhe sobre elas com vagar e aproveite, se isso lhe fizer bem, porque você é dessas almas que que sabem apreciar um piso adequado...

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Eliane, Elianinha...

Para você, cujo coração ainda se rejubila pela conquista recente, deixo um chão especial, branquinho, coberto do mais fino e perfumado pó-de-arroz.

Que bom que você veio (e vem). Não se esqueça de mim...

Super beijo.