"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

JOSÉ RUI ME MATOU


[Imagem: Studie eines mannlichen torsos  - 
Jean-Auguste Dominique Ingres
Vídeo:  Tanto mar - Chico Buarque]

Tornava para casa depois de um dia de quase tudo. Um dia de agenda. Nem bem atraquei à margem do portão, me interrompe o moço da guarita. Desço o vidro do carro e ele me estende o pacote.

Mas, quê? Pacote parto, por essas bandas onde ninguém me sabe o nome? Quando me escrevem – os que me escrevem – o fazem por meios mais ágeis. Mandam recados eletrônicos. Mas o pacote tinha marcas de mão. Entrei, estacionei. Li o destinatário (para ter certeza de que não era engano). “Bom, é para mim!” Concluí.

Tanto tenho me habituado às distâncias silenciosas que chego a desacreditar em cartas. Tudo em meu universo vagarosamente se tornou virtual. Nesse universo onde o nada e o tudo coexistem irmãmente, tenho aprendido a amar com intimidade quem não conheço. Como Neuzza Pinheiro e seu “Eukatlan; como Zélia Guardiano – guardiã das simplicidades; como Eliane Elianinha, que forja armaduras enquanto escreve; como Lara, se desmanchando em letras. Como tantos mais que me flecham com palavras pontiagudas.

Mas aquele pacote escrito à mão me arrastou para os subúrbios do universo, como um cão que arrastasse atrás de si, com fome e prazer, a ossada de um mamute.

Entro no elevador e abro. Era a promessa.

Desde o outro lado do mundo, lugar a partir de onde nossas raízes ecoam, a poesia embarcou em caravela moderna e veio desbravar-me.

José Rui Teixeira, descendente híbrido de Camões, Pessoa e Sá-Carneiro atracou sua nau de letras em meu porto, fincando-me bandeira portuguesa. Tornei-me território incorporado, quiçá uma nova “Ilha de Vera Cruz”.

Este poeta teve o cuidado e a delicadeza, próprios dos nobres de alma e linhagem, de cumprir uma promessa virtual, forjada depois de dois e-mails. E eu, que tenho redescoberto a forca inescrupulosa da poesia concebida no coito violento dos teclados recebi, maravilhado, o filho feito matéria deste poeta, seu livro “Diáspora”.

Bem, daí advém o título desta crônica: “José Rui me matou”. Primeiro por dar corpo à promessa; depois pela artilharia pesada de seus versos. Prostrei-me diante deles e fui alvejado direto no peito. Sangrei desde o imaginário e caí, com gozo vermelho vazando da boca e dos demais sentidos. Atingiram-me, primeiro, Zerbino e Ataúde; os demais sacramentaram minha condição de alvo. Alvo da beleza aflitiva, tipo de beleza que descarna e empresta novo sentido ao que se denomina beleza.

Agora estou aqui, desfalecido e feliz. Assistindo nuvens vermelhas roubarem restos de sol. Com razões de sobra para amar ainda mais Eliane, Neuzza, Zélia, Lara, Cecille, Vera e todos os demais.

O virtual existe. Qualquer que seja a forma de se manifestar.

Essas pessoas sem carteira de identidade me provam isso todos os dias. Assim como José Rui Teixeira me provou com seu presente.

A distância não existe e, se existe, as palavras são capazes de exterminá-la.

[Das: CRÔNICAS DO DIA]


Para conhecer um pouco da obra de José Rui Teixeira visite: 

www.equinociodeoutono.blogspot.com

12 comentários:

Lara Amaral disse...

Ah, que meigo isso. Primeiro, vc ter recebido um presente de um "desconhecido"; segundo, por ter citado suas amigas e me incluído, como vc é fofo! Eu lendo genuinamente ao seu texto e, de repente, me deparo com o meu nome. Um nome tão comum, Lara, sem nenhuma alusão a mais dizendo que sou eu, mas por nosso contato aqui, virtual e tão concreto ao mesmo tempo, sei que falava de mim, hehe.

Recebi já livros de dois poetas de blogs que sigo, e um cartão com chocolates de uma moça de um blog de culinária que me tirou no amigo virtual. Publiquei um livro com mais 11 poetisas do Maria Clara e só conheci uma pessoalmente, mesmo assim, nosso primeiro contato foi através dos blogs. Incrível, mas o virtual é mais real e próximo do que imaginamos. Tenho uma vida inteira de amizades e descobertas aqui, e fico feliz de poder incluir vc nela. =)

Beijo, querido poeta.

Eliane Furtado disse...

Adoro esta música do Chico. Nem me concentrei no texto desta vez. Volto depois do trabalho para ler.
Vc nem imagina a alegria que me deu ao passar lá na minha casa. Mas eu entendo as fases.
Quero tirar uns dias, mas de descanso.
Você lerá breve.

Vera do sulllll disse...

Boa Noite Agnaldo!
Já ganhando presentes? Heim! O Natal ainda não chegou e você já esta inebriado com o presente? E os outros como te agradarão.... Nada fácil não é !
Já recebeste o "TUDO" que querias rsrsrs.
Bjs

Neuzza Pinhero disse...

Agnaldo querido

ter vc como leitor dos meus versos
é muito reconfortante. E o mundo virtual, que loucura, aproximando as pessoas, criando vínculos assim
No mais, te gosto muito e curto
vir aqui sempre, te ler, me emocionar. Grande afeto e admiração
Grata por me incluir. Vivaaaa!

Neuzza Pinhero disse...

...ah, e Chico, Tanto Mar...
Amo. Não tem tamanho falar do mar
bj afetuoso e saudoso

Neuzza Pinhero disse...

cadê vc, Agnaldo?
Já ando com saudade, ler seus versos.
Esteja bem.

Vera do sulllll disse...

Olá Agnaldo.
Só pq ganhou presente não dá mais as caras.
Lembra do Pequeno Príncipe...
"és responsável por quem cativas"....
Parece que é assim, faz tanto tempo que eu li....
Bjs

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Queridas, queridíssimas (que não se esquecem...).

Volto para responder a cada um dos comentários. Prometo. Volto logo!!!

Beijo a todas.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Lara querida,

Um fofo... Gostei muito disso e me senti beijado na alma. Minha aura mudou de cor quando li seu comentário e tudo passou a ter um novo aspecto, especialmente porque "fofo" denota um carinho irremediável, o qual não sei se mereço, mas agradeço muito...

Ademais, não citei-a apenas por citar. Citei porque você sempre está aqui. Tão próxima que chego a sentir o perfume de seus versos e sua mão amiga sempre estendida. Você merece... Você é que é uma fofa... rsrsrssr...

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Elianinha do meu coração...

Se tivesse se concentrado no texto veria que você é uma das homenageadas...

E a homenagem não é vã, tampouco, formal. Trata-se de uma retribuição ao carinho e à presença constante. Aos abraços que trocamos virtualmente e à força constante que você me dá... Querida para você é pouco. Quando descobrir um termo melhor eu te conto.

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Vera, Vera, Vera...

Não cite o pequeno príncipe porque me fará chorar. Considero-o o tratado definitivo sobre a amizade; esse sentimento impossível de ser planejado, mas que, quando nasce voluntariamente tem a força de mil furacões; não deixa nada da mesma forma que encontrou...

Me sinto um afortunado por merecer seu carinho... E volto a dizer (estou sendo até repetitivo) quando posto, fico imaginando: "Será que a Vera vai ler este?" E você lê... Que bom, que bom que sempre lê...

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Neuzza querida,

Você foi a primeira pessoa que chamei de querida aqui no blog (e direto no título do comentário, junto de seu nome). E não foi à toa. Foi o coração quem disse: "Essa merece!"

Te sinto tão próxima (inclusive fisicamente) que quando você não "aparecer" fico preocupado e rezo para que tudo esteja bem.

Nós somos cancerianos, temos muito em comum. Nossas almas conversam no silêncio e se entendem nesse idioma indecifrável.

Tenho orgulho de ser seu "amigo virtual", muito embora me considere (ousadia a minha) mais real que virtual.

Obrigado por me estender a mão, o ombro e a alma. Tenho longas conversas com essa última, mesmo que você não saiba disso.

Você é especial.

Super beijo.