"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

sábado, 13 de novembro de 2010

PRECE A UM ARÍETE


[Imagem: Sea boots  - Andrew Wyeth
Vídeo: Vertigo - U2] 

Quanto mais me benzo,
Menos me defendo.
Tende piedade
De minha cabeça a prêmio.

Muralhas claustrofóbicas que ergui
Para defender-me dos saqueadores.
De nada serviram,
Vez que tenha sido despojado.
Minhas bolas de gude,
Meus estilingues precisos
Tomados à força
Pelas falanges da idade.

Tende piedade
Pelo sono que dormi
Para crescer.

Árvores que escalei
Tornadas em lenha e cinzas.
Estradas de terra
Que se foram, em piche sufocadas.
Córregos onde minhas peneiras garimpavam
Peixes e resfriados,
Servem de canais para o esgoto
De recordar.

Enquanto golpeia,
Tende piedade
Por ter permitido que paredes gigantescas
Me separassem de minha história.

Tende piedade,
Mas bata!
Tende piedade
Sem deixar de arremessar
A sua cabeça contra a minha cabeça.

E na hora derradeira,
Que sucumbamos juntos
Sem ter esquecido.

Sem ter renegado nossa natureza.

[Dos: POEMAS DO ESTOQUE]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O MERGULHO


[Imagem: Starry night over the Rhone - Vicent Van Gogh
Vídeo: Unther the bridge - Red Hot Chili Peppers]

Desço com os olhos os metros restantes da Avenida Ivo Silveira; sem demora transpasso o muro de flandres que a protege e alcanço a ponte. A velha Hercílio Luz. Talvez esteja descalço, por isso a sensação de tábuas, metal e ferrugem.

É noite como quase sempre. Apresso-me até o ponto onde a primeira coluna metálica ascende; e a escalo. Subindo, e sem ofegar, como seria de se esperar em uma escalada ocular. No topo a luz vermelha. O rubi que eu desejava. De um lado a ilha pulula lâmpadas, carros, silhuetas de concretos piscando olhos amarelados. No oposto, minha varanda acesa e nela o vulto com sua camiseta branca.

Fui até lá para enxergar do alto as sutilezas que se amoitam na claridade. O dia costuma lhes ser fatal. Somente as asas do grande  corvídeo, que emplumam ao poente fazem, a exemplo de uma rega, tais clandestinidades florescerem.

Não fosse pela ignorância estaria condenado à burocracia das mediocridades. A enxergar no raso e na superfície. Mas desconhecer me salva. Restitui a inescrupulosa aura infantil. A que não teme, porque não sabe.

Eu dizia do que experimentava ao alto da ponte. E retomo. De lá, do cume, me olho na varanda metido na roupa branca e percebo que, ao olhar, cruzo com o facho dos olhos do outro. Esse eu da varanda, que me dispara de volta dardos em sua mirada. Entreolhamo-nos como estranhos íntimos, e não desviamos. Por instantes permanecemos enamorados, cobiçando segredos um do outro.

Ele descobre que sou amante da noite. Isso no relance inicial. Mais, mais, descobre que a traio com a baía. Eu o percebo devoto dos barulhos ralos; que os assiste em seus leitos até que estejam muito fracos para resistir ao sono.

No fim, já seduzido por seu destemor de alturas e pelo belo rubi com que me quer presentear, peço que desça para me ver de perto. Não responde. Nota, por certo, o vazio devastador que nos separa. E em isso constatando, põe de volta em seu cetro o mimo escarlate que me traria e num voo elegante e antigo, mergulha. Bate no plaino d’água e desaparece.

Formam-se anelos líquidos em redor do impacto; eu contemplo. Abismado. Enquanto meus olhos se afogam na baía, coroados pelas auréolas das luzes que reverbera.

E a noite segue. E a água se assenta. E a calma nos traga. Meu olhar, absorvido, repousa nalgum ponto no fundo desse mar.

A ponte, se pudesse, teria se atirado à esperança do resgate, tentando trazê-lo à tona. Como não pode se limita a soluçar. Soluça ferro. A ferrugem cai feito orvalho acobreado.

Eu, de onde a vejo, agradeço. Agradeço pela imobilidade, por deixar meus olhos descansarem.

[É certo que estava descalço, pois, sequer os chinelos boiam].

[Das: CRÔNICAS NOTURNAS]

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

BORBOLETAS VIOLADAS


[Imagem: Not yet - Maggie Taylor maggie
Vídeo:  Nothing else matters -  Apocalyptica]

À luz
O oculto evapora.
A face demaquilada do mistério
Mostra rugas cotidianas.
Bachianas calam
Para assistir
Simulacros conhecidos.

Pode voar
A borboleta que tenha
Como espinha
Um alfinete de costura?

Um homem,
Discípulo de borboletas,
Alberga inúmeros perigos.
Um deles: lagartear para dentro,
Comer a própria flora.
Outro: panapanar-se
Até desconhecer a individualidade.

Quando o sol
Arreia o infinito e monta,
Segredos fenecem na sela
Em autocombustão.
É a luz atômica
Que faz com que desapareçam.

Pode, uma borboleta,
Se violada,
Pôr ovos em leitos de capim?

Pode! Desde que se saiba:
Nascerão taturanas,
E essas, em seu tempo,
Encasularão pólvora alaranjada
E cobrirão de fogo o campo
Quando baterem asas.

Ao primeiro brilho
Nada do que se esconde sobreviverá.

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

terça-feira, 9 de novembro de 2010

LUZ-MORENA


[Imagem:  Ripples on the ocean - Vladimir Kush
Vídeo: Sleeping Sun - Nightwish]

Preparo a madrugada
Com lúmen

Para o anjo iniciante
Que descerá descosturá-la.
O sol por entre a brecha feita
Há de ascender

Areio auroras
Com as cinzas do que foi

Noite antes
Noite em mim
Noite acima e além das certezas

Areio
Como as mulheres
Que lavam panelas na beira dos rios.
Brilham, aluminam manhãs-caçarolas
Auroras areadas

A madrugada pronta
Boceja
Adormece cintilando
Estica a mão
Para depois do cobertor
E toca os dedos do dia

Faz-se o momento
Em que se enamoram
E suas mãos
Unidas
Emendam dois mundos:
Nasce luz-morena

Como deveria ser
Filha do dia e da noite
Luz-morena
Genes de pai e de mãe

E a madrugada se recolhe de seu parto
Deixa que o macho cuide da pequena
Menina que enquanto cresce
Cada vez mais se parece
Com ele

Preparo a madrugada
Com lúmen
Para parir
Uma filha
De cada vez

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

SIAMESES


[Imagem: Study for phantastische jagd  - Franz von Stuck
Vídeo: Ilusion - Marisa Monte e Julieta Venegas]

Sinto o mundo
Como se não tivéssemos pele,
Eu e ele
Fôssemos escalpo
De corpo inteiro.

Por vezes ele pedra,
Áspero, granita;
Outras sou eu,
Friccional,
Quem o atrita.

Por sentir assim,
Irmanado de aflições
E de delícias,
É que não cicatrizo.

Partilhamos única epiderme;
Não há cura,
Nem bálsamo.
Apenas sensações.

Sensações em carne.

Com mel e cal
Nos vamos medicando.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

sábado, 6 de novembro de 2010

O SONO DO MEU AMOR


[Imagem: Woman with a candle - Godfried Schalken
Vídeo: Haja o que houver - Madredeus]

Digamos que tivesse de deixar um bilhete afixado no espelho do banheiro, explicando minha ausência no restante de sono da manhã, esse bilhetinho seria assim:

“Eu não suportei permanecer ao seu lado. Acordei tomado pelo arrebatamento diário e decidi que não ficaria ali. Mas saiba, não foi uma decisão rápida, fútil ou fácil; rolei antes, para lá e para cá. Chamei pelo sono, fiei um terço, contei um curral inteiro de ovelhas, cheguei a cogitar algum “tarja preta”. Fui vencido. Não suportei e, envergonhado, confesso.

Saí pé ante pé, macio como um gato que estivesse à espreita do canário, e justamente por isso, por me sentir à espreita, foi que me atirei para fora da cama, abri a porta e te deixei ficar.

Não se zangue comigo, porque sou um fraco. Um completo fraco; homem que não suporta.

Ei, ei, espere! Eu ainda não terminei. Creio que você mereça alguma explicação. Pois que seja:

Eu não suportei estar privado de seus olhos, mesmo que por instantes. Juntem-se o céu e o mar, façam complôs com todos os azuis da terra, ainda assim não serão páreo para esses faróis de safiras que você ostenta dentro das órbitas. Esses faróis que me conduzem ao núcleo da paz, que também deve ser azul, em vez de branca.

Eu não suportei a distância imposta pelo seu descanso. Ciúmes de seus sonhos, ciúmes dos lençóis, inveja mortal do travesseiro. Desejo de sê-los. Pluma, algodão, delírios inéditos. Tanto, tanto, tanto desejei poder me transformar, mas, não. Carne, osso, erupção é o que sou, e continuo.

Feito um gato, como já disse, te espreitei. Queria ronronar, lamber, esfregar-me na sua pele; e sua mão? Ah, o arrepio. Um gato arrepiado desde a calda até as orelhas eu seria, e feliz. Feliz.

Houve momento em que tive medo mortal. Pavor de não ser capaz de conter pesadelos ou de, por descuido, fazer algum barulho que pudesse interromper a beleza pousada em seu rosto. Essa borboleta... Encontrou a açucena rósea de seus lábios e foi beber. E era tudo tão pacífico, perene e restaurador, que tive medo de quebrar.

Entende agora por quê te deixei dormindo e vim me prostrar aqui, do lado de fora do quarto? Para que você descanse por alguns segundos do meu amor arrebatado; para que minha devoção não comprometa as paisagens paradisíacas por onde corre dentro de seu sono, e para que meu instinto de abraçar, beijar e proteger não se torne o sino da manhã.

Durma, então, que permanecerei aqui. Sou o seu lanceiro. Guardo a entrada de seu palácio. Sem elmo, sem armadura. Armado com a lança de fogo da paixão.

Mas, veja, não durma tanto mais, porque a determinação que me acometeu ao acordar, mal suporta o término dessas linhas. E, quer saber? Seu tempo acabou! Acorde! Que eu já não aguento esses minutos de saudade”.

[O bilhete não foi necessário. Tampouco precisei explicar ausência alguma. Eu estava lá quando acordou; olhando. Admirado como todos os dias].

[Das: CRÔNICAS DO DIA]

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

MARINHAS ÁRIDAS


[Imagem: Sailing - Thomas Eakins
Vídeo: Os argonautas - Caetano Veloso]

Para aonde vai
Esse barco que não tem leme?
Desliza no mar de areia
E a areia geme,
Ausência de ondas e de cais.

Onde fica o oriente
Para dar rumo à bússola imemorial?
É de se supor que exista
Algum percurso a ser desfeito pela nau,
Ou que será levada pela corrente.

Mas que corrente,
Se de poeira se fez a água,
A bruma também empoeirou?
Tempestade alguma
Ascendeu em vaga
E até o porto se desintegrou.

Aurora que avança
Pelas embarcações, incendiando.
Áureos raios crepitam velas mansas.
E o barqueiro que assaz esteve esperando
Crava na areia seus remos
Como fossem um par de lanças.

Rema, e muito rema.
Avança, e muito avança.
Sem cartas de navegação
Sem tripulação
Ou esperança.
Cumprir os rigores
Do que lhe seja pena.

Atira-se da proa desguarnecida
Antes que a disposição acabe.
Não há oriente, tampouco bússola,
Capazes de conduzi-lo pela vida.
Talvez jamais o admita,
Contudo, o sabe.

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

CONFISSÕES DELITUOSAS


[Imagem: Angel of birds - Franz Dvórak
Vídeo: Ordinary Miracle - Sarah McLachlan]

Fui eu quem esperou por primaveras
Com flores inventadas em crepom,
Sustentou as frias estações
Com esperanças de papel.

Fui eu quem se comoveu com a tristeza sem batismo,
Uma a uma, com esmero e canetas hidrocor,
Batizou às pedras da arrebentação,
Escreveu em seus ventres nomes, para que parissem.

Fui eu quem primeiro amou a anágua da baía,
O branco tecido, vezes em que barcos o rasgaram em escuma.
Costurou-a com os fios de cobre do desterro,
Nela bordou confissões em ponto cruz.

Fui eu quem desvendou a alma dos galpões abandonados.
Disse-lhes que o musgo era tinta de esmeraldas
Para alegrar-lhes o vazio e a desolação.
Mentiu e colheu sorrisos de suas bocas destelhadas.

Fui eu quem escolheu gravetos para o fogo,
Folhas antigas para o amaríssimo chá;
Da areia fez equiláteros torrões de açúcar
E da escassez, dois ou três biscoitos amanteigados.

Fui eu quem acolheu o vento quando ninguém o quis.
Assumiu como sua a inveja das nuvens pelo sol,
Conduziu-as feito pastor a um curral de tempestades
Onde pudessem, recolhidas, gritar e soluçar.

Fui eu quem escravizou o horizonte e o ponte,
Com correntes de cílios os manteve aprisionados.
Fê-los atenderem ao arrebatador egoísmo
E secretamente arrastarem meus olhos atrás de si.

Fui eu quem envenenou mariposas com opiáceos,
Acendeu lâmpadas douradas onde se reunissem em sabás.
Fui eu quem libertou hordas de encantamentos famélicos
Para que se alimentassem, se fartassem da paisagem.

Foi em minha boca que regurgitaram - aves paternais -
O esplendor das miudezas sem fantasia. E eu comi.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

SALVO-CONDUTO


[Imagem: Apollo and Marsyas - Bartolomeo Manfredi
Vídeo:  Do the evolution - Pearl Jam]

Você pode me bater na cara
E achincalhar meus antepassados;
Pode coroar-me pária,
Conceder comenda de desprezo, abjeção.

Você pode envergonhar meu nome
E maldizer toda a minha descendência.
Pode, ao seu capricho, urinar sobre meus versos,
Propalar defeitos, mesmo os que não tenha.

Você pode escarnecer quando me vir,
E cortar rua, estimulando que outros o façam.
Pode presentear-me com esterco,
Pisar sobre as hortênsias de meu jardim.

Você pode rezar contra a minha sorte
E semear pregos por onde eu passe.
Pode afiançar publicamente minhas fraquezas,
Endossar que sou reles, valho pouco.

Você pode conspurcar-me a existência
E atear fogo ao que me é sagrado.
Pode beber de meu vinho para cuspi-lo,
Duvidar de meu caráter, minhas verdades.

Você pode rasgar a flâmula de minha honra
E as vestes que me cobrem as vergonhas.
Pode, por vaidade, ressaltas feiuras,
Regozijar-se ao me encontrar ferido.

Você pode me açoitar – eu aguento.
Pode me acossar – eu enfrento.
Você pode o que quiser – eu não lamento.

Só não macule o riso de quem amo,
Nem queira nodoar sua virtude.

Se algum favor me permite – não o peço – clamo:
Recua a tua língua, a tua mão, muito e amiúde.

Recolha o teu desejo e o teu fervor.
Porque o meu instinto não resisto a esse dano

E eu aniquilo quem ferir o meu amor.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

CANÇÃO DE GIZ


[Imagem: Writing chair  - Andrew Wyeth
Vídeo: Giz - Legião Urbana]

Essa veia que treme
No pescoço
Parece dizer.

O cigarro entre os dedos
Queima
A mesma voz.

Quando um carro passa
Reproduz,
E o escuto.

Chacoalha o guizo-coração
- Compasso métrico –
Notas cintilantes.

E a pequena flor
Alvíssima, do bonsai,
Me sai da boca.

Agora desenho
Com sílabas de giz
Partituras
Na superfície da água.

Algum dia hei de saber
O que dizia a veia entre sobressaltos,
O que a voz queimada deixou de dizer.

Algum dia;
E os carros produzirão sons inteligíveis.
O coração comporá uma sinfonia.

Algum dia; o entendimento.

E as flores alvas do bonsai
Serão notas
Boiando na partitura.

Canções que não se apagarão.

[Dos: POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS]