"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

CONTOS NOTURNOS.


ANTES QUE A NOITE ACABE

- “Antes que a noite acabe hás de me esquecer!”

Disse-lhe, ainda girando, sacudindo a pachimina que lhe coroava os ombros enquanto dançava.

- “O encanto é como a neve que lenta se deposita sobre as folhas e os bosques. As árvores se vão vestindo de noivas com longos vestidos brancos; emparelham-se ao largo, feito alvos anjos, em profundos silêncio e beleza. Depois se vai, com a primavera. Antes da flor primeira. tudo se derrete, escorre, é absorvido pelo chão”.

E se equilibrava no ar, pondo ondas no finíssimo tecido, sua última pele.

- “Virão outras rosas; outros pardais chilrearão sob a eira de teu quarto e te despertarão para manhãs desconhecidas. E eu terei sido ave de um outro tempo, cujo canto definha no fundo de uma lembrança; beirando a ser irreconhecível. Tentarás assoviar o meu nome, mas os teus lábios se renderão ao esquecimento, à estranheza do intento, ao desconforto de entoar canção que nunca existiu”.

Quase não a ouvia. Rendia-se ao deleite de seus movimentos e ela prosseguia, rodopiando.

- “Veja, que como poeira voarão os teus dias; sempre para frente, sempre adiante. Eu permanecerei lago, água de um só lugar. E menos que água, seixo; e menos que seixo, musgo; e menos que musgo, saudade inominada. Saudade de... Não saberás... Do lugar que nunca viste? Do gosto jamais provado? Do desejo queimado até as cinzas, mas irreconciliável?

Tentou interrompê-la, contudo não conseguiu. Ela tocou-lhe os lábios com os dedos e eles traziam o mel dos anos, da infância.

- “Não diga, não, não diga! É noite, e as palavras se perdem dentro dela. As palavras e tudo o mais para além. As minhas mãos depois das tuas, e os meus seios antes dos teus lábios, e o teu desejo junto do meu, entrecortados, auscultando o galope precioso de instantes por findarem. Não diga, não agora! Para que o silêncio te guarde e escolte; nele encerre lembranças e madrugada, porque antes que a noite acabe hás de me esquecer”.

Ela, então, livrou-se da pachimina rubra e finalmente cessou de dançar. Findara a música. (As horas não).

O tempo se incumbiu de semear cinzas sobre a noite e apagá-la.

Anos depois ouviu a mesma música. Qual ave abatida em pleno voo, acudiu-se dela, perseguiu-a de ouvidos até alcançá-la. (A bailarina rodopiava).

Detrás de vitrina a bailarina; e tão opaca quanto a vitrina, a sensação de limiar. (A peça que lhe faltava? Uma pachimina?) Fagulhas, lembranças abrasadoras, imagens por acender. Lembrar-se de que, afinal?

Da caixinha de música ela, pequenina. Girando, girando em frente ao espelho retangular. Uma bailarina como as outras, que nunca existiu. Não havia o que lembrar.

(Talvez, pela generosidade do acaso, tenha de fato existido; sido esquecida, depois... Antes de a noite acabar).

4 comentários:

Neuzza Pinhero disse...

esse texto me lembra um conto de fadas; é como se numa outra dimensão...
a imagem da noite apagada pelas cinzas é belíssima.
-.-.-.-.

Ah...tô rindo de mim mesma lá no Spirituals. As pessoas fogem assustadas qdo se fala de melancolia, de morte...
Enviei o assunto pelo meu mailing
e recebi 2 ou 3 anexos de auto-ajuda mas nenhuma palavra, nada íntimo, tudo muito impessoal, distante...

Neuzza Pinhero disse...

ah, tem esses malucos como Augusto de Campos, esses obsessivos maravilhosos, que traduzem, intraduzem, subvertem os nossos sentidos. Que bom...rs

Neuzza Pinhero disse...

Voltei, Agnaldo, porque tinha me
esquecido:
adoro Nina Simone
E adoro Billie, Chet Baker, enfim...
veja o blog borboleta de jade, vc vai curtir muito

abraço grande

Jullia A. disse...

consigo imaginar um ballet ao estilo sonho de uma noite de verão.
Em que a bailarina vai falando isso e indo embora, como se fosse uma ilusão. entende?