"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

domingo, 25 de julho de 2010

CANÇÃO PARA MINHA MÃE
(ou: gramática de ninar)

Pretérito
Perfeito como um verbo
Transformado em rosas.

Minha mãe!
Sinto o gosto do teu leite
Na boca
Da manhã.

O teu beijo
Em minha face
Fez crescer
Barba, bigode, saudade.
O anel
Que tu me deste
Era vime.
Teus dedos nos meus
Anelados
E o meu umbigo
No teu útero
Permanentemente.

Sujeito
Oculto feito um verso
Criado no colo.

Minha mãe!
O cheiro do teu cabelo
Minhas angústias
Amansa.

Os teus olhos
Nos meus olhos
Desabrocham
Begônias, estrelas, lágrimas.
O amor
Que tu me tinhas
Era fruto.
Bendito é o fruto
Do vosso ventre:
Menino teimoso,
Homem vincado, canhoto,
Envelhecendo até ser capaz
De desnascer.



(Coincidência ou não, minha mãe acabou de me ligar... Matar um pouco a saudade).


sábado, 24 de julho de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS



O COITO NA MANHÃ SEGUINTE

Pôs unguento na ferida
E a lacrou
Com renda branca.
Deu-me de beber
Um comprimido de esperança.
Fez dormir
A minha angústia
Cantando versos
De esquecer.

Lavou-me a fronte febril
Com água de rosas.
Recostou-me em sua teta
E eu bebi.
Amargo, o seu leite,
O bom remédio
Como amargos
Os remédios devem ser.

Costurou-me a pele
Sobre o corpo
E a alma coseu
Junto às entranhas.
Salvou-me, por fim,
De chorar
Com lâmina
E traqueotomia.

Permaneceu acordada
Assistindo ao meu delírio.
Dentes rangendo,
Ossos querendo sair.
Rezou sobre meu sono atribulado;
Não dormiu.
Quando acordei
Ainda estava lá, a vida,
Com seu sexo aberto, exposto.
E eu o penetrei
Até que engravidasse de mim.

DA SÉRIE: POESIAS INACABADAS


O AZAGAIEIRO

Saíste.
Tinhas nas mãos a azagaia e o espólio de teu pecado.
Seguiste com ele em tuas palmas, terrivelmente atacado.
Fugiste igualmente ao castigo para o qual foste talhado.
E em riste o terás sobre o dorso, eternamente cravado.

Partiste.
E rápido como teus rastros, apagou-se o teu legado.
Resiste da tua história somente o que não foi contado.
Concluíste o mal intento e em teu destino assoberbado
Persiste ao esquecimento um assassínio imputado.

Caíste.
Como caiu tua sentença sobre um rosto aviltado.
Denegriste a amena têmpora de teu irmão invejado,
Abriste terrível úlcera, deixaste-o lá, abandonado.
Aboliste-o pelo sangue. Tu restaste escravizado.

Denegriste,
Sujaste a pedra e a lança, teu futuro e teu passado.
Consiste de tua lembrança um espírito vil, perturbado
Construíste sobre a areia teu castelo e teu reinado.
O alpiste que te alimenta foi na morte conspurcado.

Premuniste,
E no entanto o fizeste, o evento foi consumado.
Cumpriste o negro fadário, por negra coroa, ornado,
Persiste em tua cabeça e na lápide há de ser gravado.
“Triste, aqui jaz Caim. Que ao irmão teria assassinado”.





(Poema inacabado. Tinha um sentido, uma forma e um rumo, agora ganhou outro. Começou a nascer não sei quando e findou hoje, 17 de julho 2010).

sexta-feira, 23 de julho de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS





AVE-MARIA RADIOTIVA


Cinco e meia
Já tem lua.
Esperneia a inquietação
Entre um cigarro e outro
Trago
Lua cheia.

Cinco e meia
A vontade bipartida.
Sobre a amurada o oceano
Enfrenta as pedras
Aziago
As chicoteia.

Cinco e meia
A primeira estrela.
No mesmo cinzeiro os meus olhos
No mesmo cinzeiro
Os apago
Cinco e meia.
...

Às seis horas da tarde
Um meteoro se chocará
Contra o meu espírito
Às seis horas da tarde
Ave-mariarei
Plasma,
Silêncio,
Passado.

A oração de pó,
Radioativa,
Dita em meu favor
Derreterá o metal do tempo
Permanecerá ainda minha
Às seis horas da tarde.

(Como fora minha
A lua cheia
Desde antes de eu nascer, e tanto
Quanto o era quando me orbitou
Às cinco e meia).

POEMAS PERDIDOS NO TEMPO

SUAVE Nº 1

A vela crepita, a formiga escala o azulejo,
Corre atrás de outra – à frente de uma, corre,
Invade a alma uma quietude que escorre
Qual escorresse na boca antigo pedaço de beijo.
E corre a formiga, escala o azulejo.

Sempre formiga; e sempre alma a escorrer,
Sempre cheia, sempre à mercê, sempre à borda,
Na alma o açúcar que a toda formiga acorda
Em toda formiga o impulso que a faz a correr.
E corre a formiga, escala o azulejo.

Pára ante o ladrilho e observa – uma criança –
Desliza o dedo gordo contra a parede lisa,
Fosse no chão o caminho – onde se pisa –
Não tentaria com o longo dedo que as alcança.
E foge a formiga, escala o azulejo.

A manhã se deita, a formiga escala o azulejo,
Consome-se em olor de bruma arrefecida,
Rompe a garganta estridente gosto de bebida,
Só comparado ao gosto do inconcebível desejo.
E corre a formiga, escala o azulejo.

E ao refletir da vela contra os olhos infantes,
Com os dedos gordos queimados de parafina,
Desliza sobre o azulejo a chama e o ilumina,
Acendendo-a por detrás, cercando-a mais adiante
E a formiga já não corre – morre! Escalando o azulejo.




(Trata-se de um poema antigo, meados do ano 2000, ainda sob o escaldante calor de Cuiabá).

quarta-feira, 21 de julho de 2010

POEMAS PERDIDOS NO TEMPO


LADO B

                                                 ...Antes eram
pobres,
putas,
e pretos
O esgoto silente e secreto
Correndo a céu aberto,
À noite, à sombra, sob o véu escuridão,
Um tipo velado de corrente escondendo um tipo diferente
De escravidão.
pobres
putas
pretos
O mesmo sobrenome: ladrão.

...Hoje
A modernidade recria
Novos tipos de minoria
Dessas que andam de dia
            e são aceitas aos pedaços,
pretos, pobres e putas
gordos, branquelos, viados
carecas, sapatas e aleijados.
moleques, pivetes, desempregados.
A mesma falsa moral
O mesmo rótulo: anormal.

“Lá vem um preto dirigindo um carrão importado”.

Patrão, ladrão ou empregado?

Um pobre a espreita num restaurante refinado.

Roubo, fome ou lugar errado?

Uma aprendiz de puta chora o leite derramado
                              (Das sarjetas de suas tetas),

No vazio de seu ventre sem um ente desejado.

Chora, a noite, chora, para que as lágrimas varram a sujeira embora
           pretos pobres putas

“chora, noite, chora, enquanto ninguém te escuta!”

...hoje
        a modernidade respira
        um tipo diferente de mentira
                                  chamada evolução.

        pretos pobres putas e viados
        gordos branquelos sapatas e aleijados

Riso fácil entre os dentes
Punhal apertado na mão.
A modernidade se traveste de embuste
Um travesti chamado evolução.
O lábio ri enquanto passa
O comboio dessas sub-raças
O espólio generoso da desgraça
Ardendo em brasa a tolerância carvão.
        Riso entre dentes cortando a roupa
        Punhal cuja ponta se estica a partir da boca
        Destilando ódio, veneno, segregação.

pretos pobres putas viados          branquelos carecas sapatas aleijados
mendigos moleques pivetes desempregados:

gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado...

Faz-se o silêncio e o silêncio permanece calado.

é o filho do vizinho que é viado
é do pivete de rua o prêmio do vidro quebrado
e para o desempregado? ao quadrado, ao quadrado,
o jornal de ontem, os classificados, o prato vazio, o portão fechado
o semblante levemente desconfiado, ao quadrado, ao quadrado,
cuidado! (ele pode estar armado).

Faz-se o silêncio e o silêncio permanece inquebrantado.

cego para a menina sem namorado
cego para os corpos avantajados
cego para os humildemente magros
cego para os cabelos rari-ficados
cego para os descorados
cego para os excessivamente corados
cego para os que não são
cego para os que são exacerbados
                           cego para os que não se encaixam
                           no molde pré-determinado
                           perfeito correto justo belo validado
                           aceito permitido bem-vindo corroborado

                                  a modernidade se veste
                                  com uma pele que serve ao mesmo
                                  propósito passado.

cega!
um risinho lacônico, um comentário debochado.

pretos pobres putas viados          branquelos carecas sapatas aleijados
mendigos moleques pivetes desempregados:

gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado...

talvez o futuro seja uma incógnita hipotética
e as grandes lições sejam verdades patéticas
talvez nasça um girassol no Atacama
talvez antes disso a terra se consuma em chamas.

Futuro é vento soprado de pleno pulmão
Que move o mundo e as grandes revoluções.
Gente não é gado
Não importa o tamanho do cercado
O pasto, a marca, o cabresto, o arado, o tipo de ração...
Gente é universo que explode,
  inspira, transpira, ferve, vibra, fode,
Gente é mais que roupa, rótulo, posse, aceitação,
Gente é aquilo que pensa.
(A menos que pense que não).

pretos pobres putas viados           branquelos carecas sapatas aleijados
mendigos moleques pivetes desempregados:

pode ser gado, pode ser gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado...

Talvez a diferença seja justamente esta
Saber a quanto de gado cada um se presta.

No lado “b” do disco a faixa mais espúria,
O som das patas do gado
Levando no peito o arame farpado,
Cabrestos, rótulos, olhares atravessados,
Deixando de ser gado para ser uma manada em fúria.

Deixando de ser gado para ser semente.

Pretos, pobres, putas e viados,
Branquelos, carecas, sapatas e aleijados,
Mendigos, moleques, pivetes e desempregados:

Gente, Gente, Gente, Gente, Gente, Gente, Gente, Gente...



terça-feira, 20 de julho de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


CATECISMO DE FIO E CORTE

Entender a língua das navalhas
Pela lâmina.
O idioma dos punhais,
O vocabulário secreto dos garrotes,
Pelo uso
Ou pela simples interpretação de sua presença
Em versos agudos.

Apreender de um espinho
A carícia pontuda.
O desejo dele.
Falo, falo por completo, de corpo inteiro,
Fazendo prazer em toda carne
Em toda parte.
Gozando ponta para dentro
Fundo. Até o pé.
Feito uma rima boa
Ou uma idéia iluminada.

Esmiuçar o mistério das farpas
Com as unhas.
O irrevelável dos cacos de vidro
E dos pregos oxidados.
Sabê-los com a alma
Ou com os calcanhares,
Se todo o resto não bastar.
Descobrir a letra que falta
Antes da hora,
Antes que seja tarde.

Deslindar da pólvora o perfume
Do fogo esgotado.
Do fogo apenas
Ou da ausência do fogo.
Cheirá-la depois de morta,
Domesticá-la, desmistificá-la.
Cantar para que vire pó
Pólvora cremada.
Lançar-lhe as cinzas ao mar
Enquanto a declama.

Captar o derradeiro suspiro
Do poema,
Seu passamento antecipado.
Sua matéria inevitavelmente esfriando
Sob a pele das palavras.
E, já apodrecendo, suas unhas
Cabelos e métrica.
Ouvir-lhe a leitura do testamento
Com lágrimas nos olhos.
E secretamente,
Muito secretamente desejar
Ser-lhe o único herdeiro.

Reter no peito o angustiante sentimento da poesia
Nem que para isso seja necessária
Uma faca
Metida até o cabo.


POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS


FESTA DE SÃO FIRMINO

Amigos que te viraram as costas
Bebem no bar a aguardente que era tua.
Festejam-te a ausência.

A mulher que te amava
Desliza, fricciona a pele delicadamente
Contra outra pele, pêlos
Que não são os teus.

E Judas também te traiu.
E o que era para ser-te um beijo de amor
Tornou-se a flor exposta de tuas fragilidades.
Entregou-te o coração em ânfora de barro.
E os cães o cheiraram. E os homens se riram dele.

Teu cavalo se recusa
A dar-te lombo, trote, fuga.
Tem o coice pronto à tua têmpora.
Está velho e fraco,
Contudo, não aceita
Ser a montaria de um derrotado.

Vês os touros?
É a hora.

Arranca tuas últimas roupas
Como se raspasse os pêlos, um pouco de pele e carne.
Desfaz-se de teus sapatos e de tuas meias sem par.

Tens as calçadas e as janelas
Por testemunhas
Os olhos incrédulos de teus acusadores
Como juízes imparciais.

Avança! Avança, homem.
Volta-te, ao contrário da multidão,
E confronta os touros debandados.
Um deles há de ter o chifre perfeito
Para que teu peito seja perfurado.

...

No bar, a aguardente já não desce.
A mulher enxuga o rosto com encardidos lençóis.
Antevendo a corda, Judas estremece. Escurece ao meio-dia.
Sobre cela fria, sob os olhares baixos dos juízes e da malta
Estende-se a única bandeira que falta. Seu corpo nu, pisoteado.
...E o cavalo o conduz delicadamente, como o fizesse à última [Godiva.



terça-feira, 22 de junho de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


ATRAVÉS DO ESPELHO

Toca a minha mão. Vem!
Que hora é essa em que a tua face pálida
Me ausculta o mínimo pensamento
E até mesmo o silêncio me consegue ouvir?
Ah, pois então, se é a tua, a minha voz,
E se nossa, em uníssono, se vai morrendo devagar
Antes mesmo de ser gutural,
De escapar-se pela goela e dela fugir.
Pois então, se é assim,
Toca, e apenas toca, a minha mão.
Vem!

De onde me conheces, pergunto, de onde?
Que tanto sabe e, por isso, tanto bem me olhas
Cavando o máximo de escondido que há em mim?
Há rugas em meu cenho, e sei, e sei que há
E sei que outras hão de vir, marcar-me a ferro e a tempo,
Tornar-me escravo delas pelo resto de meus dias.
E tu me olhas, e tão somente, e me olhas muito,
Conhecendo-me melhor que quem me tenha concebido.
E eu pergunto, e torno a fazê-lo:
De onde me conheces?

É tarde, sim, o sei. Concordas?
Tarde para tudo e cedo para quase nada. Nunca.
Se ao menos teu olhar te resgatasse de meus olhos
E o levasse para distante, para o ignorado,
E me deixasse por aqui, diante da prata lisa e sem imagem,
Se ao menos isso... Fosses apartado de minha pele,
Desatado de minha carne,
Afastado de minha alma pelo tempo necessário ao descanso.
Mas já é tarde e, sim, o sei. Concordas?

Vai-te de uma vez, te imploro, vai!
Deixa descansarem os meus nervos tenros,
E sobremaneira, deixa que se dobrem os meus joelhos,
E mais, e mais, deixa que se extenuem as minhas lamentações
Até deixarem de ser.
Pois tens diante de ti um outro homem,
Um homem sem reservas e sem poderio algum.
Espólio de si mesmo, imensurável, urgente e agudo.
Incapaz de compreender a tua presença,
De desvendar o teu gesto mais sutil,
De encarar-te com a coragem que mereces.
Vai-te, é o que te ordeno. Vai-te de uma vez. Vai!

Ignoras, por certo. Ou talvez?
Vês-me aqui, como estou, de pé e fragilizado?
Ou tens, talvez, outra consciência, que não esta,
De que cá estou, completamente fragilizado?
Não sabes. E não sabendo tem pouco que me dizer.
Pouco. Por isso, esse escasso, de nada serves.
Só a minha mão conseguirá atravessar tua cortina de vidro
E te libertar. Só a minha mão sangrando contra os cacos.
Mas eu te deixarei aprisionado. Ignorar-te-ei,
Porque sou um outro homem para além de ti.
Homem áspero demais. Demais até.
Incapaz de suportar a doentia intensidade,
O brilho e a crueza insana do próprio reflexo.
E isso é o que ignoras, por certo.
Ou talvez...