"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

CRÔNICA DO DIA.

A CIÊNCIA POR TRÁS DO DOCE DE ABÓBORA

Algumas coisas passam sem passar. Ou melhor, os anos passam e certos sabores permanecem atrelados ao momento; não perseguem o tempo nem grudam nele... Acontece isso com doce de abóbora.

Talvez seja necessária uma explicação detida, além de maior clareza de raciocínio. (Tentarei). Vamos aos fatos: Minha mãe fazia o melhor doce de abóbora do mundo. E eu o comia pela manhã (parece estranho, mas na época não) com uma talhada de pão feito em casa. Tinha um sabor de... Saudade? (Na verdade passou a ter esse gosto depois de algum tempo).

Olhe que a ciência da receita não tomaria meia folha de caderno. Abóbora (naturalmente), um pouco de água, açúcar (naturalmente também, vez que se tratava de um doce), dois ou três cravos da índia, panela, fogo e braço. Vê-se de cara que há ciência nisso... Mas, qual? Talvez a ciência da escassez, da inexistência de chocolates, balas de goma, leite condensado, flans metidos a besta, sobremesas prontas. A ciência do suor de uma mãe cansada, mexendo panelas sem parar... De resto é que persigo esse doce de abóbora ao longo da vida. O tempo passou, mas ele não passa.

Provei de ricas iguarias, mas jamais alcancei a mesma sensação. Continuo desejando, buscando um gosto que já não existe. (Talvez porque eu mesmo também não exista e, como desculpa, persiga incessantemente a sombra de um menino que adorava doce de abóbora com pão caseiro).

terça-feira, 28 de julho de 2009

CRÔNICAS ESPARSAS.


O MESTRE DA MÚSICA

Há um filme chamado “O mestre da música”, e esse filme foi determinando em minha vida. Meu primeiro contato com a música clássica – mais precisamente com a ópera – aconteceu no dia em que o assisti. Era noite, nos confins do Mato Grosso do Sul. Um domingo triste.

Trata-se da história de um velho cantor que e precisa encontrar discípulos. Aceita uma aluna e resgata um ladrãozinho de rua, os quais passa a doutrinar. (O enredo é melhor visto do que narrado)...

Mas a música. Ah, a música. Essa fala comigo até hoje, mais de vinte anos depois. Um enigma que me persegue constantemente e sem resposta. Feitiço sem cura, do qual não me livrei nem quis.

Termina com um dueto da “Traviata” que me fez chorar. Chorar muito... Desliguei a televisão e fui para o alpendre, deitar numa rede que ficava de prontidão para quem a quisesse. Era noite, assim como noites tem sido os meus dias desde então (no que se relaciona ao tema).

Não entendia e ainda não entendo a razão de tamanha paixão. Devoção até. Eu era um menino, nascido e criado no sítio, entre vacas e galinhas e, de repente, fui tocado por um encantamento arrebatador... Não deveria gostar de ópera nem chorar por ela, mas o fiz. Eis o que sou a partir de então: estrangeiro em minha própria vida, um estranho em meu corpo, desconhecido completo, irremediável, sem cura e sem endereço fixo.

CRÔNICA DA TARDE.


CABO DAS TORMENTAS

O branco me desafia. A ausência me desafia igualmente, bem como o vazio. Olho para o espaço por preencher e me parece que a folha quer, que ela deseja urgentemente ser violada, anseia por palavras, assuntos, detalhes assustadores e revelações desprovidas de sentido.

Vou lhes contar um segredo: as palavras agarram na gente. É verdade! Escrever é mais que uma escravidão, é um ato de misericórdia e solidariedade. Diria até que é uma espécie rara de exorcismo, conhecida por poucos. (Ah seu os religiosos conservadores soubessem... “Um padre nosso, três ave-marias, um copo de água benta e doze páginas escritas, sem falta”... Todos os demônios purgados, derretidos em tinta de caneta).

Ceifei muitas vidas e gerei outras tantas, e tudo sem sair de casa, sem mover um músculo que não os necessários ao pesado exercício da escrita. Gosto de brincar de Deus (e aproveito para desafiá-Lo de uma maneira bem sutil, exercendo o que Ele me deu sem saber que era uma arma. Ou sabia?)). Creio sinceramente que deve Ele rir das minhas bestagens...

...O mar todo matizado. Azuis, faixas arenosas, espuma e verdes cá e lá. Mas isso é desimportante, porque o meu oceano é uma folha em branco onde naufraguei, e as palavras são destroços de minha embarcação. Hei de ser salvo por elas, resgatado por elas, pois elas mesmas me conduziram a este ponto: o porto definitivo, o meu cabo das tormentas.

CRÔNICA DO DIA.


ORIGAMI

Meus vizinhos são quase todos idosos. Passo dias sem ouvir ruídos; tal fato me convence de que a pacificação e o silêncio são signos do tempo. Falar é uma prerrogativa dos que não aprenderam o suficiente; uma forma de interiorizar, de acreditar no discurso e de vencer pelo volume.

Com os velhos não! A idade os amaciou, ensinou-lhes tudo o quanto foi preciso e em certo ponto chegaram à essa luminosa conclusão. (Amadurecer com sabedoria é um prêmio cujo troféu é feito de silêncios).

Gosto mesmo desses vizinhos. Gosto a ponto de percorrer os elevadores (mesmo quando não é necessário) na tentativa de encontrá-los, trocar um “dedinho de prosa”. (Me enriqueço mais em quinze andares de conversa do que em seis horas de noticiário. E vale, isso sim, vale!).

Dia desses um – cabelinhos branquíssimos - me perguntou logo de manhã: “O senhor não costuma ir à praia?” Atordoado pelo excesso de respeito respondi uma desculpa qualquer; e ele riu para mim. Ri de volta, tentando imaginar os sinuosos caminhos que houvéramos percorrido antes de adentrar o elevador. (A vida nos vai, secretamente, dobrando).

(Restou-me a bonita a imagem desse homem velho). Em cada ruga daquele rosto, em cada vinco daquela pele sentida, residem as mãos do tempo. As dobras que ele fez sobre o papel do destino, tornando o homem aquilo que é: um belo e frágil pássaro de papel, prestes a voar.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

CRÔNICA DO DIA.


LETARGIA

Corpo estendido, largado de um lado. Vida que se arrastava por debaixo das portas, feito quisesse vazar. Nata de melancolia empoeirando os móveis. Sentiu-se imergindo vagarosamente para dentro (mas, de onde?).

Dormira mal e mal estavam os sentimentos, as vontades, o ânimo e o vigor. Lembrou-se de haver sonhado com pescarias, com boas pescarias em lugares azuis. (O mundo deveria ser um lugar azul. Azul-turquesa).

Depois olhou para os pés e para as mãos. Hastes perpassavam os primeiros, pondo-lhes raízes nas pontas e na base; e galhos brotavam de suas mãos, com folhas amareladas nas pontas deles.

Poderia se tornar uma daquelas encantadoras árvores do hemisfério norte (daquelas cujas belas folhas avermelhadas estendem a beleza até o chão), mas não. Estava se tornando um fícus ou um jequitibá, ou mesmo um jenipapeiro. (E amarelava, desfolhava-se até o fundo, perpetuando ramos, galhos secos e tristes arranhando o teto e espantando os pássaros).

Vegetal. Musgo sobre os galhos-ombros, casca-pele ressequida. Todos os sinais confirmavam definitivamente o que era, o que se tornara.

“Voilá”: um machado serviria. Uma serra, talvez; o machado sem dúvida. Cortaria o tronco da árvore que se tornara; tombaria de encontro ao despertar. O baque faria voar a folha, o musgo restantes. Vestígios que lhe fariam ver: não eram folhas nem musgo. Era caspa, cabelos e pele morta.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

CRÔNICA DO DIA.

O SOFÁ

Tudo em silêncio, só o silêncio que não. Silêncio que não era paz, nem sossego e nem descanso. Estava ocupado demais em se preservar.

Olhou em volta para o amontoado de coisas desordenadas. Sentia-se assim, algo desordenado também. Via-se com imenso novelo sobre o colo e preservava o secreto conhecimento dos mistérios casuais. Mais cedo ou mais tarde a ponta viria e seria capaz de esticar todo o fio, fazer um varal com ele, estender as roupas molhadas e mandar a vida ir.

Mas aquele momento de silêncio pesado comprimia-lhe o peito de forma que respirar... Arfadas, somente arfadas, baforadas – reinvenção de tuberculose crônica, nascida no íntimo. Contaminara toda a casa.

Concluiu que não aprendera corretamente a lidar com a vida prática. Sabia um bocado de alma e de angústia e de segredos internos. Das praticidades, praticamente nada. (Já era muito, aliás). E tinha ainda o fio...

Então foi se estirando sobre os móveis. Ficando para cima de uma poltrona, emendando-se aos tapetes, mimetizando paredes e portas e vidraças e objetos mais. Copulando com o silêncio e se emprenhando.

Até que entraram de repente em sua casa, (depois de muito que havia desaparecido). Encontraram no centro da sala um estranho objeto feito de carne e silêncio. Espécie assimétrica de assento, útil ao local.

Era o seu corpo (mas sem a alma). Belo e grotesco. Um sofá desalmado.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

CRÔNICA DO DIA.


QUANDO EU GANHAR NA LOTERIA

Duvido que exista alguém que jamais tenha devotado minutos de seu dia à construção de sonhos relacionados ao prêmio gordo da mega-sena. Se existe eu não conheço! Ora, que 48 milhões dão para uma boa festa...

Vou ficar bem quieto. Primeiro é isso. Me meto num desses hotéis caros, aliás, num spa (não para emagrecer. Eu não preciso), de preferência um que tenha todos os sossegos imagináveis à disposição. Massagem disso, banho daquilo, vinho de acolá, safra de não sei quando, tratamento anti-tudo e, claro, um quarto com vista. Vista para um lago, que tal?

Nisso eu gasto uns dias; vou ficar engrouvinhado de tanto banho de imersão. Depois toco adiante com as pequenezas que tenho sonhado:

Uma bela casa para os cães (a pug Lolla e o golden retriever Flúvio), e um quintal gramado onde possam ser cães de verdade. Em volta da casa haverá um sítio e dentro do sítio um corredor de palmeiras imperiais - caminho de lajotas vermelhas - e em torno de tudo o grande muro de pedra-canga terminando em portão de ferro-fundido. Arabescos antigos como todo o lugar, como suas árvores frutíferas perfumando as manhãs.

Galinheiro caprichado para os faisões (que não serão comidos), horta de fazer gosto e uma piscina para que as visitas se refresquem na churrascada de domingo. (É meio brega, mas 48 milhões não evitam isso).

Para mim? Ah, não pensei nisso ainda. (Acho que vou morar com os cães).

terça-feira, 21 de julho de 2009

CRÔNICA DO DIA.


A MINHA VERSÃO OFICIAL

Nas proximidades do hotel Recife o mar me desvenda as razões do nome da cidade. É lá que, nos dias de maré-baixa, deixa aparecer enormes costelas de pedra. Penso que, se escavado, o local revelaria um colosso de rochas deitado desde imemoriais eras. Gosto dessa fantasia porque ela é minha. Ninguém me revelou tal segredo. Eu o inventei e por isso tem uma cor especial. O nome da cidade... Para explicá-lo deve haver ao menos uma versão oficial. Que me interessam as versões oficiais?

Algum dia, quando o mar estiver acanhado – perseguindo uma lua oculta para além do horizonte - o gigante de rocha despertará. Será um dia de susto e comoção. Os vendedores de caldinho serão os primeiros a correrem. Os seguirão os banhistas da primeira hora e por último pararão os carros, deixando a avenida imersa em caos. Todos vislumbrarão, admirados, o titã sacudindo de sobre sua pele os musgos, as algas, os restos de conchas e os pequenos siris que se acoitam nas reentrâncias.

Nesse dia estarei por perto. Vou me deter um tempo em sua face pétrea, e quando me encarar não terei dúvida em seduzi-lo: “Uma água de coco?” (Há de aceitar. Não conheço quem resista a um convite desses, especialmente depois de ter dormido por tanto tempo sob a água salgada desse mar que não tem fim). Trocaremos segredos e causos... Incrédulos, os passantes seguirão suas vidas... (Como se nada tivesse acontecido).

segunda-feira, 20 de julho de 2009

CRÔNICA DO DIA.


É O QUE ME INTERESSA

Lenine é um dos pernambucanos mais interessantes que eu conheço (ao menos da última década, porque se retroagirmos vira covardia: Bandeira, Paulo Freire, João Cabral etc. etc.)... Voltando a ele, algumas de minhas canções favoritas desfilam por sua bela voz, ganhando contornos que se estendem para além do significado. É assim com: “É o que me interessa”.

Resolvi falar dessa belíssima letra. É tocante (e chega a comover quando casada à melodia). Recorri a ela porque o dia merece, o instante merece e o mar azul de lá fora - lindo de incomodar – também merece.

Acordei bem cedo para caminhar. Andei pela praia observando coisas que normalmente deixaria passar. A mulher que passeava com seu cãozinho pug – o Bob – me descreveu com ricos detalhes as delícias de tê-lo como filho, depois de já ter criado um outro - esse, humano, com quase vinte anos. Gostei. (Ainda vou ter um desses, ah se vou. E vai se chamar Lolla).

Voltei num aperto danado. Não! Não foi nada na alma, mas nos intestinos. Olha que o assunto foi feio. Quase que o elevador se deu mal. No fim, entre mortos e feridos, todos bem e – graças a Deus – limpos...

Eu falava da música... Ela traduziu o dia. Lembrou-me que a sobra do passado, bem como a sombra do futuro não são capazes de me assombrar... O silêncio pequeno das coisas simples, só isso me mobiliza!

“Quando eu olhar pro lado eu quero estar cercado só de quem me interessa”.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

CRÔNICA DA TARDE.


OVO

Comprei ovos no supermercado (crônicas de sexta-feira, as pobres vêm dos guichês, das gôndolas, seções de hortifruti e das filas, mas hoje não). Isso me fez pensar que somos frágeis e, à parte isso, conseguimos conter sistemas solares, nebulosas, estrelas e buracos-negros. É bom ser ovo!

Bem verdade que somos ovo de uma maneira diferente do próprio ovo. O calor, a tensão, a pressão externos são capazes de nos enrijecer, mas (digo por mim) não nos endurecem por completo e - boa paga – permite que sigamos um mínimo menos quebradiços. (É bom ser ovo?).

Sarei um pouco do meu mal inexplicável. Matei com biscoitos de gergelim os bichos que me devoravam de dentro para fora (eram vermes de um tipo muito raro. Vermes de inquietude e de alma), e já me sinto capaz de interpretar as delícias de um ovo (que vão além da fritura, da omelete, do cozimento e da maionese caipira). (É bom ser ovo?)

De vez em quando preciso daquelas embalagens de papelão azul (ou de uma dessas modernas, alaranjadas, espécie de isopor) para proteger minhas cascas de impactos exteriores (embora entenda que para o caso desse ovo aqui, o impacto tem aspectos de implosão). É bom ser ovo?

Comprei logo uma dúzia e meia dos grandões, vermelhos (se bem que considere a cor mais para marrom); os trouxe fora do carrinho, e com elevado zelo. Chegaram inteiros em casa, assim como eu. É bom ser ovo!