"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

terça-feira, 20 de julho de 2010

POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS


FESTA DE SÃO FIRMINO

Amigos que te viraram as costas
Bebem no bar a aguardente que era tua.
Festejam-te a ausência.

A mulher que te amava
Desliza, fricciona a pele delicadamente
Contra outra pele, pêlos
Que não são os teus.

E Judas também te traiu.
E o que era para ser-te um beijo de amor
Tornou-se a flor exposta de tuas fragilidades.
Entregou-te o coração em ânfora de barro.
E os cães o cheiraram. E os homens se riram dele.

Teu cavalo se recusa
A dar-te lombo, trote, fuga.
Tem o coice pronto à tua têmpora.
Está velho e fraco,
Contudo, não aceita
Ser a montaria de um derrotado.

Vês os touros?
É a hora.

Arranca tuas últimas roupas
Como se raspasse os pêlos, um pouco de pele e carne.
Desfaz-se de teus sapatos e de tuas meias sem par.

Tens as calçadas e as janelas
Por testemunhas
Os olhos incrédulos de teus acusadores
Como juízes imparciais.

Avança! Avança, homem.
Volta-te, ao contrário da multidão,
E confronta os touros debandados.
Um deles há de ter o chifre perfeito
Para que teu peito seja perfurado.

...

No bar, a aguardente já não desce.
A mulher enxuga o rosto com encardidos lençóis.
Antevendo a corda, Judas estremece. Escurece ao meio-dia.
Sobre cela fria, sob os olhares baixos dos juízes e da malta
Estende-se a única bandeira que falta. Seu corpo nu, pisoteado.
...E o cavalo o conduz delicadamente, como o fizesse à última [Godiva.



terça-feira, 22 de junho de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


ATRAVÉS DO ESPELHO

Toca a minha mão. Vem!
Que hora é essa em que a tua face pálida
Me ausculta o mínimo pensamento
E até mesmo o silêncio me consegue ouvir?
Ah, pois então, se é a tua, a minha voz,
E se nossa, em uníssono, se vai morrendo devagar
Antes mesmo de ser gutural,
De escapar-se pela goela e dela fugir.
Pois então, se é assim,
Toca, e apenas toca, a minha mão.
Vem!

De onde me conheces, pergunto, de onde?
Que tanto sabe e, por isso, tanto bem me olhas
Cavando o máximo de escondido que há em mim?
Há rugas em meu cenho, e sei, e sei que há
E sei que outras hão de vir, marcar-me a ferro e a tempo,
Tornar-me escravo delas pelo resto de meus dias.
E tu me olhas, e tão somente, e me olhas muito,
Conhecendo-me melhor que quem me tenha concebido.
E eu pergunto, e torno a fazê-lo:
De onde me conheces?

É tarde, sim, o sei. Concordas?
Tarde para tudo e cedo para quase nada. Nunca.
Se ao menos teu olhar te resgatasse de meus olhos
E o levasse para distante, para o ignorado,
E me deixasse por aqui, diante da prata lisa e sem imagem,
Se ao menos isso... Fosses apartado de minha pele,
Desatado de minha carne,
Afastado de minha alma pelo tempo necessário ao descanso.
Mas já é tarde e, sim, o sei. Concordas?

Vai-te de uma vez, te imploro, vai!
Deixa descansarem os meus nervos tenros,
E sobremaneira, deixa que se dobrem os meus joelhos,
E mais, e mais, deixa que se extenuem as minhas lamentações
Até deixarem de ser.
Pois tens diante de ti um outro homem,
Um homem sem reservas e sem poderio algum.
Espólio de si mesmo, imensurável, urgente e agudo.
Incapaz de compreender a tua presença,
De desvendar o teu gesto mais sutil,
De encarar-te com a coragem que mereces.
Vai-te, é o que te ordeno. Vai-te de uma vez. Vai!

Ignoras, por certo. Ou talvez?
Vês-me aqui, como estou, de pé e fragilizado?
Ou tens, talvez, outra consciência, que não esta,
De que cá estou, completamente fragilizado?
Não sabes. E não sabendo tem pouco que me dizer.
Pouco. Por isso, esse escasso, de nada serves.
Só a minha mão conseguirá atravessar tua cortina de vidro
E te libertar. Só a minha mão sangrando contra os cacos.
Mas eu te deixarei aprisionado. Ignorar-te-ei,
Porque sou um outro homem para além de ti.
Homem áspero demais. Demais até.
Incapaz de suportar a doentia intensidade,
O brilho e a crueza insana do próprio reflexo.
E isso é o que ignoras, por certo.
Ou talvez...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


NAU FRÁGIL

Que importa o mar
Pontilhado de amarelo
E a cidade estrelada de baixo para cima?

A ponte que nada atravessa,
Com suas costelas férreas e finas.
Longas, visíveis, viscerais?

De que adianta o céu límpido
A lua nova vestida de pérolas
Ou as nuvens penduradas em varais
Nos cumes da ilha?

Que importam a beleza,
A quietude, as maravilhas,
Se a cabeça dói como o diabo
E a alma amedronta a noite
Com seu silêncio pesado?

Que importa a paisagem
Se tudo é passagem
E o que resta é a ponte fechada
Ligando o nada ao ignorado?

Que importa, afinal,
O olhar do homem que, sentado,
Tenta iluminar a noite
Com seus olhos?

Que importam a pergunta e a resposta
Se só a ignorância salva?
Importam os dedos frios?
Importam as mãos alvas,
Quando tudo mais é desconforto?

De que vale o pleno governo sobre o corpo
Se a cabeça dói e a alma, em coro,
A acompanha?

De que servem a ilha,
O continente
E meu olhar que os apanha
Se nada é capaz de me salvar?

- De resto é o mar...

Dentro, fora,
Em todo lugar.
(Afogando a calma,
Fazendo-a afundar).

terça-feira, 25 de maio de 2010

POEMAS TARDIOS


CONTRAPONTO

De um lado o peito
Do outro a mão
No meio
A faca.

De um lado o efeito
Do outro a ação.
No meio
A faca.

De um lado o feito.
Do outro a ilusão.
No meio
A faca.

De um lado o peito
Do outro a mão.
No meio, não!
A faca, não!

O corte estreito,
A incisão
E o cabo
(Uma estaca).

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


NATUREZA SELVAGEM

Fogo e pólvora se entreolhando.
Enamorados, lascivos,
Prontos a acasalar sob metais pontiagudos.

Cão raivoso cuja coleira está prestes.
Amarras que tendem a ceder
À força dos trancos
Do ranger de dentes e da escuma.

Grande libélula, ou pássaro, ou flor.
Dotados da poção mortífera,
Do mais letal dos venenos,
Da sedutora aniquilação
E da beleza.

Diamante de ponta de lança.
Ouro de adaga afiadíssima.
Prata no fio agudo das navalhas,
E outros metais e outras gemas
Igualmente contundentes
Propícios para flechas.

Eis a máquina diante do espelho
Com seu elmo de penas negras
Dos corvos sacrificados,
E eis seus olhos cintilantes e vermelhos,
Pacíficos, perenes, inabaláveis.
Couraça de ossos e dentes,
Pele áspera, urticante. Coração macio.

Bicho homem,
Completo. Inteiro.
Desvendado.
E nu.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

DA SÉRIE: POESIAS INACABADAS


O LEÃO

Sob a manhã de ouro e poeira,
Rasteiro como a savana incandescente,
- Perdido nela – oculto e rei,
O leão lambe as chagas.

As sombras da noite ainda vingam.
Fome, feridas, desassossego,
- Sangue na língua – o próprio sangue,
E a lancinante dor que não se apaga.

O cheiro de carne aguça os dentes,
As garras, o instinto primordial.
E a fome ainda, ainda, e ainda o cansaço.
O peso do tempo é o que o esmaga.

Ruge e urina e esfrega o dorso
Nos troncos antigos das velhas árvores.
Cumpre seu direito, monárquico, ancestral,
Indiferente ao fato de que a vida acaba.

É um rei, sem dúvida, e sangrando
Aguarda, altivo, quem o desafie.
Acercam-se hienas, dispostas, regougando,
Ávidas de tudo, de seu sangue e plaga.

Apenas a morte terá como herança
As fibras gastas e o couro curtido.
Terão de matá-lo antes de comê-lo.
- Um rei não se rende. Um rei não arreda.

Porque a vida se compra é com valentia.
Mesmo que, de resto, sobrem pêlos, ossos.
O sangue negro sobre a terra seca
Será a moeda com a qual foi paga.

E quando, por fim, a savana pressentir,
E o cheiro do sangue atravessar o vento
Irá se curvar, pois o rei foi morto.
Mas não foi vencido. - Um rei não se entrega! -.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


MARCHAI!

Levas de retirantes,
Hordas de famintos e miseráveis,
Rumas de cabisbaixos desesperançados,
Batalhões de inenarráveis vozes, murmúrios e silêncios:
Marchai!

Marchai, pois, marchai!

Ancorada está a nau dos degredados,
Tremulam em mastros distantes as bandeiras negras dos corsos
E estes afiam suas longas unhas, imundas, desgastando-as na proa.
Suam os remadores, seus dorsos deformados, impulsionando a galé;
Emparelham-se todas as embarcações e ouvem o chamado:
Marchai!

Marchai, pois, marchai!

Turba de ignorados,
Populacho, dignos representantes da escória,
Líderes da malta e seus asseclas,
Súcia dos desprovidos, dos sujos e desnudos,
Meretrizes, pederastas, reis e rainhas da noite e dos guetos.
Enfileira-se o clã dos madraços, de punhos cerrados:
Marchai!

Marchai, pois, marchai!

Coronéis desonrados em batalhas antigas,
Generais carcomidos de ferrugem e covardia,
Soldados de baixa patente, estima e bravura.
Nenhuma medalha a reluzir, e ainda as armas embainhadas.
Mancam seus cavalos e de velhos se curvam.
Pesam-lhes nas mãos as baionetas, retinem,
Quando, ao longe, rugem canhões apodrecidos:
Marchai!

Marchai, pois, marchai!

Porque este é um canto de esperança.
Disparadas foram, as palavras, e marcaram as paredes das casas,
Esburacam-nas com seu aço e sujaram-nas de pólvora.

Marchai, marchai mais!

Porque a voz que dormitava recobrou-se
Da borda do abismo.
Sonambolava, prestes a ceder,
Mas do fundo ouviu-lhes a marcha e acordou.

Marchai, ainda e ainda, marchai!

Porque não é a fome que aniquila, mas a resignação.
Tampouco o exílio o que oprime; mas a fuga.
Levantem suas cabeças e batam os pés
Para que trema a terra e se curve o céu,
E todo o silêncio seja estilhaçado na primeira hora.

Marchai, marchai, marchai!

Rumo ao porto – ser vela e vento e mar.
Contra ondas negras e monstros das profundezas, vão!
Tomar de assalto as caravelas dos conquistadores
E quebrar os remos das galés para que deslizem sem esforço.
Para que se acalmem as águas e se abra o firmamento.

Marchai, ainda que exaustos, marchai!

Com suas vestes de corte, manchadas e rotas.
Ao som dos doídos clarins e por entre olhares incrédulos.
Realeza inexpugnável, cuja dignidade se oculta sob a pele;
Soberanos das sobras, majestades do submundo.
Sois os herdeiros da escuridão, da noite e dos faróis.
E na cova de seus rastros eclodirão,
Feito serpentes indestrutíveis, os novos dias.

Marchai, sim! E sangrando, marchai!

Pela ausência de divisas em seus ombros
E pelo que lhes foi negado desde a aurora.
Para vingar os cavalos estirados no campo de batalha,
Recobrar a honra e a coragem.
Avancem! E sem demora, visto que o temo os come.
Avante, soldados desfardados,
Avante desafortunados, coroados de maus agouros.
Levantem e sigam, porque este é um canto de esperança.
Sacudam-na, façam tremer suas vestes verdes,
Pois ela só desperta depois que todos despertarem.

Marchai, marchai, e sempre e muito, marchai!

Porque sem marcha a vida se esgota
E toda sorte de fungos a faz apodrecer.
Marchai sobre a feiura dos campos desérticos;
Os que precisam ser semeados.
Pelo que não vingou e por tudo que ainda há de ser.
Pela angústia que nos irmana do mesmo lado do rio
Como se um único fôssemos todos nós.
Marchai por vós e marchai também por mim,
Poeta exilado, apátrida,
Cujo coração vermelho
Pulsa em verdíssimo manto,
Sob os pesados pés do universo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


A MEDUSA

Paz das coisas tolas e pequenas
Dos cerrados retorcidos e das casas velhas
Carcomidas por lembranças em pó.

Paz das almas fracas e servis,
Dos cordeiros dependurados
E das moscas festejando restos azuis.

Paz das senzalas interiores,
Dos jazigos presenteados ao nascimento.
Dos serenos rios correndo a um só lugar.

Paz dos varais tremulantes,
Dos tanques intermináveis de lençóis quarados,
Dos dedos crus das lavadeiras.

Paz dos hirtos, enfermos e contentes.
Dos átrios sem gente ou pressa.
Do mato crescendo por entre pedras.

Paz dos lagartos sob os troncos,
Dos homens sob cascas
E das almas por detrás de cortinas.

Paz sem serventia.
Paz que não se levanta nem reage.
Paz letárgica e mentirosa.

Em constante guerra se ergue
O meu coração.

Sujo de sangue.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


CONTEMPLAÇÃO

Quando a beleza devassa as sombras
E põe fogo nos azulejos da casa,
Quando o vento se enrola nos pés de mesa
E canta nas frestas músicas antigas,
Quando o silêncio se curva para ouvir
E dar voz aos grilos e às cigarras,
Quando o espírito crepita,
Fagulhando cinzas, brasas, entre o passado e futuro.
É nessa hora que me engasgo,
Saio tateando o impalpável,
E todos os sentidos moram num só lugar:
Os meus dedos.

Quando a palavra exata desaparece,
Mesmo se tendo fantasiado de infinita,
Quando as fechaduras portam olhos
E os espelhos descansam da carga de refletir.
Quando a poeira de sobre as coisas toma forma
E aspecto de outra matéria que não poeira.
Quando o eterno dorme nas teias das aranhas
E nelas se balança, prestes a cair.
É nessa hora que me entrego,
Deixo que me comam as horas,
E elas me vão devorando a partir do centro
(E dos ossos).

Quando a maré se levanta, se atira contra o quebra-mar
E sangra espumas brancas entre veias pétreas,
Quando a força das insignificâncias ganha corpo
E explode brotos nas frestas das calçadas.
Quando o visgo de existir cobre a própria existência
E a esverdeia inteira, umedecendo-a sem a manchar.
Quando verdade e certeza deixam de importar
E a melancolia espalha unguento nos batentes das portas.
É nessa hora que me embargo,
Esfrego o meu cio nos objetos e na vida. Descanso.
E todas as necessidades tornam-se uma:
Contemplar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

POEMAS TARDIOS


DEPILAÇÃO DOS GRANDES LÁBIOS

Arreganha – aranha!
O manto, negro
Véu de sua sanha,
Seus dentes,
Seus lábios latentes,
Arreganha,
Sua boca ardente
Afiado cílio
Que arranha.

Quando lambe, a lâmina,
Docemente -
Deslizando, secreta,
A carne proeminente,
- Essa montanha,
Arreganha – aranha!
Assanha a semente
Para que nela cresça
A língua,
Para que dessa
Íngua
Brotem licores
Quentes.

Estranha simetria
Essa sua cova esguia,
Cova de harpia – aranha!
Arreganha
A orquídea híbrida,
A rubra papoula.
Os tufos de pêlos
Juntam-se, novelos,
Ceifados – aranha!
A herança crioula
Revela-se moura
Onde a unha
É estranha.

Arreganha – aranha!
Beba do que lhe banha.
Lisa face rósea
Lisa carne teácea,
Desnudada barganha.
A navalha cega
Se rende
Se entrega
A sua façanha.
Arreganha – aranha!
A vulva-cela.
Revele de dentro dela
O seu poder,
A sua manha...