"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

CRÔNICA DO DIA.

É DE METER MEDO

Há cerca de três décadas – e isso nem é tanto – porco não assustava ninguém. Para assustar criança desobediente os adultos armavam o que podiam. No sítio, lideravam assombrações e lobisomem. Deus o livre de acordar de noite com um vulto aos pés da cama e além, que Deus o proteja de topar com o cachorrão gigante – feições de gente – que rouba os recém-nascidos para comer sob a lua cheia. Ave, que isso fazia gente urinar nas calças. Havia também o homem da perua-kombi, o que roubava crianças e as levava para lugar ignorado, distante dos pais...

A gente cresce e descobre que boa parte desses medos se esvai com a idade. Desaparecem para dar lugar a outros. Assustar criança daquele tempo com H1N1 só professora de matemática; expressões numéricas, equações inacessíveis. E porco? Porco só preocupava quando estava recém-parido (no caso, a porca). Hoje não! Hoje o lobisomem espreita o banco 24 horas; trabuco na cintura. O sujeito da kombi não leva somente crianças (diversificou, e não fica mais com a coitada, pede dinheiro em troca), e a assombração foi eleita ao senado. Usa terno, bravata e bigodão.

O mundo está louco. Vou comprar uma passagem só de ida para a infância. Lá me associo ao lobisomem e ao homem da perua (devem estar aposentados). Vamos assombrar festa infantil, fazer transporte escolar e montar suinocultura financiada pelo BNDES. (Que os juros estão bons!).

terça-feira, 4 de agosto de 2009

CRÔNICA DA TARDE.

RECEITA DE BOLO

Veja se o dia é bom e se a manhã é branca. Se forem, o tempo está propício. Corra até a varanda e se debruce, olhando o mar (e se não tiver mar? Ora, seja criativo). Deve haver sobre ele (o mar) uma nata de sol corando-lhe a superfície, deixando-o amanteigado de luz. (E se não tiver mar? Aí entra a criatividade: procure a nata nas árvores, nas pedras, no asfalto recém-lambido pelo dia). Recolha o creme com os olhos e reserve.

Ainda onde se debruçou respire grosso. Respire e peneire os sons da hora. Não se assuste com barulhos encaroçados dos escapamentos ou com as pelotas de buzinas e pressa. Coe até ficarem finos, até serem vento líquido, silêncio gasoso, sossego em pó e paz. (Vai dar certo).

Depois, já numa bacia, misture tudo usando as mãos. (Importa mais a temperatura da pele que a habilidade em mexer). Se tiver unhas grandes não há problemas. Que os resíduos penetrem sob elas, sujando-as. Continue a sovar, a dar volume... Adicione céu a gosto, olhos, agosto, uma pitada de firmamento em pó previamente dissolvido em água morna.

Quase pronto. Agora é assim: é entender que não há feiúra que resista a bons olhos, nem beleza que lhes suporte a indiferença. Entendido isso aqueça o forno, unte uma assadeira de furo, ponha a massa e asse. Se não ficar bonito, torne-o. Se ficar lindo, o reverencie. Sirva. (Deve ser comido quente, enquanto o espírito matinal resiste aos afazeres do dia).

CRÔNICA DO DIA.


LURDINHA ANOS 70

Parecia uma travesti. Ora, não se trata de uma crítica, ao contrário, para ela o termo assentava como elogio. Isso porque era esguia, exuberante, sempre “vestida para matar”. Unhas e humor no mesmo nível, afiados.

Guarda-roupa vintage, aliás, trintage; desfilava modelitos guardados com esmero desde o fim da era hippie. Dancing days repaginados (graças a Deus sem as polainas) e rico em paetês, verniz, mega-colares e afins.

Intrigava-me. Contudo, era bom estar com ela. Quarentona, corpinho de 38, maturidade de 50 e espírito de 25, total 153 (mas 153 o quê?). Ah, 153 cores de baton, sempre em tons vermelho-escândalo, 153 pares de sapato (todos muito altos, vibrantes, dramáticos), 153 calças coladas com 153 estampas diferentes, além de uns 1153 adereços resgatados do fundo do baú. O conjunto empolgava, dava-lhe certa irreverência.

O desavisado, que passe agora por aqui, e com muita pressa, vai se precipitar ao julgá-la uma alegoria. Que nada! A mulher era uma reinvenção constante. De si mesma, do mundo, do que esperavam dela.

Bonita e exótica cairiam bem. (Os atrevidos diriam tratar-se de uma bicha que deu certo; nasceu mulher!). Eu, humildemente, atribuí a ela um posto mitológico. Ninfa atemporal, impoluta, liberta do alheio. Ensinou-me que o espírito é o guarda-roupa do tempo, que o melhor traje é aquele que te mostra livre, inteiro e vivo; mais parecido com o que - de fato - você é.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

CRÔNICA DO DIA.


O TANGO

Perdi-me de mim dia desses; a tarde se escorava nas costas dos prédios, escorregando por entre eles e se espichando sobre o mar. Estava na varanda, mas era o mesmo que não estivesse, tão fisgado que fui pelo inusitado. Uma andorinha solitária prenunciava todos os verãos do futuro.

Minúsculo anjo de prata; reluzente se desvendava seu peito branco contra a luz do dia minguante. (Uma ave com peito prateado merece ser comparada a um querubim). Arremetia com força para o muito alto, levando consigo o meu olhar; arremetia e voltava, em rasante de atordoar.

Fiquei nela - sentidos atados; investigava-lhe as manobras na tentativa de entender, compreender mesmo que de passagem as razões de tamanha alegria; já descrente de que alegria e solidão pudessem coexistir.

Depois de algum tempo consegui desvendar-lhe o balé. O motivo era uma mariposa; dançava tango com ela que, desesperada, tentava livrar-se de seu bico. (Um tango... Nenhuma outra canção se prestaria a uma beleza tão urgente, tão avassaladora). A constatação me desanimou...

O anjo argento passou a ser apenas um pássaro faminto. A alegria imotivada nada mais era que fome, que necessidade; a mariposa, não sei.

Findaram num mergulho rumo ao invisível; e para mim a ausência de desfecho. Quisera saber se a fome subjugou a beleza ou se - terminada a dança - entreolharam-se como antigos amantes, cúmplices e exaustos...

sábado, 1 de agosto de 2009

CRÔNICA DO DIA.


DUPLA IDENTIDADE

Tinha muitos machucados nas mãos. Pequenos cortes, arranhões, perfurações sob as unhas e uma cicatriz de queimadura. Era manhã e olhar para as mãos - vê-las marcadas – decerto lhe pôs desespero no lombo. Olhava, mas não sabia. Via, contudo não atinava. Imaginava.

Levou horas desfiando lembranças, tricotando com fiapos arrancados à força. Bom seria ter enfrentado aventuras – flertar com o perigo, falta de juízo ou medo – e escapado incólume, e com alguns arranhões. Resgatar a vítima, caçar o vilão, retornar a tempo de tirar a capa; dormir um pouco.

Mas a memória, velha rota desgraçada, mostrou-se como é, perversa. Achegou-se lentamente para levar ao chão o império das possibilidades.

Os cortes eram de cacos de vidro. Do copo que se quebrara enquanto era lavado (sangue e espuma). E ainda as picadas de embaixo das unhas e a marca de fogo, besteiras também! A culpa de uma era da pouca habilidade com a agulha, na prega de botão; e a outra, bem, a outra... De fazer vergonha. Conseguira-a na borda de uma assadeira de bolo (estupidez e bolo quente)... Mas, os arranhões? Sim, os arranhões...

Marcas de unhas... (Há os que aqui vão pensar: “Hummm, marcas de unha, heim? Está melhorando!” Mas quê). Eram marcas das próprias unhas. Herança de uma coceira danada. Maldita alergia a sabão em pó...

(Só de vingança ficaria uma semana sem lavar uma peça de roupa sequer).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

CRÔNICA DO DIA.

A CIÊNCIA POR TRÁS DO DOCE DE ABÓBORA

Algumas coisas passam sem passar. Ou melhor, os anos passam e certos sabores permanecem atrelados ao momento; não perseguem o tempo nem grudam nele... Acontece isso com doce de abóbora.

Talvez seja necessária uma explicação detida, além de maior clareza de raciocínio. (Tentarei). Vamos aos fatos: Minha mãe fazia o melhor doce de abóbora do mundo. E eu o comia pela manhã (parece estranho, mas na época não) com uma talhada de pão feito em casa. Tinha um sabor de... Saudade? (Na verdade passou a ter esse gosto depois de algum tempo).

Olhe que a ciência da receita não tomaria meia folha de caderno. Abóbora (naturalmente), um pouco de água, açúcar (naturalmente também, vez que se tratava de um doce), dois ou três cravos da índia, panela, fogo e braço. Vê-se de cara que há ciência nisso... Mas, qual? Talvez a ciência da escassez, da inexistência de chocolates, balas de goma, leite condensado, flans metidos a besta, sobremesas prontas. A ciência do suor de uma mãe cansada, mexendo panelas sem parar... De resto é que persigo esse doce de abóbora ao longo da vida. O tempo passou, mas ele não passa.

Provei de ricas iguarias, mas jamais alcancei a mesma sensação. Continuo desejando, buscando um gosto que já não existe. (Talvez porque eu mesmo também não exista e, como desculpa, persiga incessantemente a sombra de um menino que adorava doce de abóbora com pão caseiro).

terça-feira, 28 de julho de 2009

CRÔNICAS ESPARSAS.


O MESTRE DA MÚSICA

Há um filme chamado “O mestre da música”, e esse filme foi determinando em minha vida. Meu primeiro contato com a música clássica – mais precisamente com a ópera – aconteceu no dia em que o assisti. Era noite, nos confins do Mato Grosso do Sul. Um domingo triste.

Trata-se da história de um velho cantor que e precisa encontrar discípulos. Aceita uma aluna e resgata um ladrãozinho de rua, os quais passa a doutrinar. (O enredo é melhor visto do que narrado)...

Mas a música. Ah, a música. Essa fala comigo até hoje, mais de vinte anos depois. Um enigma que me persegue constantemente e sem resposta. Feitiço sem cura, do qual não me livrei nem quis.

Termina com um dueto da “Traviata” que me fez chorar. Chorar muito... Desliguei a televisão e fui para o alpendre, deitar numa rede que ficava de prontidão para quem a quisesse. Era noite, assim como noites tem sido os meus dias desde então (no que se relaciona ao tema).

Não entendia e ainda não entendo a razão de tamanha paixão. Devoção até. Eu era um menino, nascido e criado no sítio, entre vacas e galinhas e, de repente, fui tocado por um encantamento arrebatador... Não deveria gostar de ópera nem chorar por ela, mas o fiz. Eis o que sou a partir de então: estrangeiro em minha própria vida, um estranho em meu corpo, desconhecido completo, irremediável, sem cura e sem endereço fixo.

CRÔNICA DA TARDE.


CABO DAS TORMENTAS

O branco me desafia. A ausência me desafia igualmente, bem como o vazio. Olho para o espaço por preencher e me parece que a folha quer, que ela deseja urgentemente ser violada, anseia por palavras, assuntos, detalhes assustadores e revelações desprovidas de sentido.

Vou lhes contar um segredo: as palavras agarram na gente. É verdade! Escrever é mais que uma escravidão, é um ato de misericórdia e solidariedade. Diria até que é uma espécie rara de exorcismo, conhecida por poucos. (Ah seu os religiosos conservadores soubessem... “Um padre nosso, três ave-marias, um copo de água benta e doze páginas escritas, sem falta”... Todos os demônios purgados, derretidos em tinta de caneta).

Ceifei muitas vidas e gerei outras tantas, e tudo sem sair de casa, sem mover um músculo que não os necessários ao pesado exercício da escrita. Gosto de brincar de Deus (e aproveito para desafiá-Lo de uma maneira bem sutil, exercendo o que Ele me deu sem saber que era uma arma. Ou sabia?)). Creio sinceramente que deve Ele rir das minhas bestagens...

...O mar todo matizado. Azuis, faixas arenosas, espuma e verdes cá e lá. Mas isso é desimportante, porque o meu oceano é uma folha em branco onde naufraguei, e as palavras são destroços de minha embarcação. Hei de ser salvo por elas, resgatado por elas, pois elas mesmas me conduziram a este ponto: o porto definitivo, o meu cabo das tormentas.

CRÔNICA DO DIA.


ORIGAMI

Meus vizinhos são quase todos idosos. Passo dias sem ouvir ruídos; tal fato me convence de que a pacificação e o silêncio são signos do tempo. Falar é uma prerrogativa dos que não aprenderam o suficiente; uma forma de interiorizar, de acreditar no discurso e de vencer pelo volume.

Com os velhos não! A idade os amaciou, ensinou-lhes tudo o quanto foi preciso e em certo ponto chegaram à essa luminosa conclusão. (Amadurecer com sabedoria é um prêmio cujo troféu é feito de silêncios).

Gosto mesmo desses vizinhos. Gosto a ponto de percorrer os elevadores (mesmo quando não é necessário) na tentativa de encontrá-los, trocar um “dedinho de prosa”. (Me enriqueço mais em quinze andares de conversa do que em seis horas de noticiário. E vale, isso sim, vale!).

Dia desses um – cabelinhos branquíssimos - me perguntou logo de manhã: “O senhor não costuma ir à praia?” Atordoado pelo excesso de respeito respondi uma desculpa qualquer; e ele riu para mim. Ri de volta, tentando imaginar os sinuosos caminhos que houvéramos percorrido antes de adentrar o elevador. (A vida nos vai, secretamente, dobrando).

(Restou-me a bonita a imagem desse homem velho). Em cada ruga daquele rosto, em cada vinco daquela pele sentida, residem as mãos do tempo. As dobras que ele fez sobre o papel do destino, tornando o homem aquilo que é: um belo e frágil pássaro de papel, prestes a voar.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

CRÔNICA DO DIA.


LETARGIA

Corpo estendido, largado de um lado. Vida que se arrastava por debaixo das portas, feito quisesse vazar. Nata de melancolia empoeirando os móveis. Sentiu-se imergindo vagarosamente para dentro (mas, de onde?).

Dormira mal e mal estavam os sentimentos, as vontades, o ânimo e o vigor. Lembrou-se de haver sonhado com pescarias, com boas pescarias em lugares azuis. (O mundo deveria ser um lugar azul. Azul-turquesa).

Depois olhou para os pés e para as mãos. Hastes perpassavam os primeiros, pondo-lhes raízes nas pontas e na base; e galhos brotavam de suas mãos, com folhas amareladas nas pontas deles.

Poderia se tornar uma daquelas encantadoras árvores do hemisfério norte (daquelas cujas belas folhas avermelhadas estendem a beleza até o chão), mas não. Estava se tornando um fícus ou um jequitibá, ou mesmo um jenipapeiro. (E amarelava, desfolhava-se até o fundo, perpetuando ramos, galhos secos e tristes arranhando o teto e espantando os pássaros).

Vegetal. Musgo sobre os galhos-ombros, casca-pele ressequida. Todos os sinais confirmavam definitivamente o que era, o que se tornara.

“Voilá”: um machado serviria. Uma serra, talvez; o machado sem dúvida. Cortaria o tronco da árvore que se tornara; tombaria de encontro ao despertar. O baque faria voar a folha, o musgo restantes. Vestígios que lhe fariam ver: não eram folhas nem musgo. Era caspa, cabelos e pele morta.