"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

sábado, 1 de agosto de 2009

CRÔNICA DO DIA.


DUPLA IDENTIDADE

Tinha muitos machucados nas mãos. Pequenos cortes, arranhões, perfurações sob as unhas e uma cicatriz de queimadura. Era manhã e olhar para as mãos - vê-las marcadas – decerto lhe pôs desespero no lombo. Olhava, mas não sabia. Via, contudo não atinava. Imaginava.

Levou horas desfiando lembranças, tricotando com fiapos arrancados à força. Bom seria ter enfrentado aventuras – flertar com o perigo, falta de juízo ou medo – e escapado incólume, e com alguns arranhões. Resgatar a vítima, caçar o vilão, retornar a tempo de tirar a capa; dormir um pouco.

Mas a memória, velha rota desgraçada, mostrou-se como é, perversa. Achegou-se lentamente para levar ao chão o império das possibilidades.

Os cortes eram de cacos de vidro. Do copo que se quebrara enquanto era lavado (sangue e espuma). E ainda as picadas de embaixo das unhas e a marca de fogo, besteiras também! A culpa de uma era da pouca habilidade com a agulha, na prega de botão; e a outra, bem, a outra... De fazer vergonha. Conseguira-a na borda de uma assadeira de bolo (estupidez e bolo quente)... Mas, os arranhões? Sim, os arranhões...

Marcas de unhas... (Há os que aqui vão pensar: “Hummm, marcas de unha, heim? Está melhorando!” Mas quê). Eram marcas das próprias unhas. Herança de uma coceira danada. Maldita alergia a sabão em pó...

(Só de vingança ficaria uma semana sem lavar uma peça de roupa sequer).

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