"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

sexta-feira, 23 de julho de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS





AVE-MARIA RADIOTIVA


Cinco e meia
Já tem lua.
Esperneia a inquietação
Entre um cigarro e outro
Trago
Lua cheia.

Cinco e meia
A vontade bipartida.
Sobre a amurada o oceano
Enfrenta as pedras
Aziago
As chicoteia.

Cinco e meia
A primeira estrela.
No mesmo cinzeiro os meus olhos
No mesmo cinzeiro
Os apago
Cinco e meia.
...

Às seis horas da tarde
Um meteoro se chocará
Contra o meu espírito
Às seis horas da tarde
Ave-mariarei
Plasma,
Silêncio,
Passado.

A oração de pó,
Radioativa,
Dita em meu favor
Derreterá o metal do tempo
Permanecerá ainda minha
Às seis horas da tarde.

(Como fora minha
A lua cheia
Desde antes de eu nascer, e tanto
Quanto o era quando me orbitou
Às cinco e meia).

POEMAS PERDIDOS NO TEMPO

SUAVE Nº 1

A vela crepita, a formiga escala o azulejo,
Corre atrás de outra – à frente de uma, corre,
Invade a alma uma quietude que escorre
Qual escorresse na boca antigo pedaço de beijo.
E corre a formiga, escala o azulejo.

Sempre formiga; e sempre alma a escorrer,
Sempre cheia, sempre à mercê, sempre à borda,
Na alma o açúcar que a toda formiga acorda
Em toda formiga o impulso que a faz a correr.
E corre a formiga, escala o azulejo.

Pára ante o ladrilho e observa – uma criança –
Desliza o dedo gordo contra a parede lisa,
Fosse no chão o caminho – onde se pisa –
Não tentaria com o longo dedo que as alcança.
E foge a formiga, escala o azulejo.

A manhã se deita, a formiga escala o azulejo,
Consome-se em olor de bruma arrefecida,
Rompe a garganta estridente gosto de bebida,
Só comparado ao gosto do inconcebível desejo.
E corre a formiga, escala o azulejo.

E ao refletir da vela contra os olhos infantes,
Com os dedos gordos queimados de parafina,
Desliza sobre o azulejo a chama e o ilumina,
Acendendo-a por detrás, cercando-a mais adiante
E a formiga já não corre – morre! Escalando o azulejo.




(Trata-se de um poema antigo, meados do ano 2000, ainda sob o escaldante calor de Cuiabá).

quarta-feira, 21 de julho de 2010

POEMAS PERDIDOS NO TEMPO


LADO B

                                                 ...Antes eram
pobres,
putas,
e pretos
O esgoto silente e secreto
Correndo a céu aberto,
À noite, à sombra, sob o véu escuridão,
Um tipo velado de corrente escondendo um tipo diferente
De escravidão.
pobres
putas
pretos
O mesmo sobrenome: ladrão.

...Hoje
A modernidade recria
Novos tipos de minoria
Dessas que andam de dia
            e são aceitas aos pedaços,
pretos, pobres e putas
gordos, branquelos, viados
carecas, sapatas e aleijados.
moleques, pivetes, desempregados.
A mesma falsa moral
O mesmo rótulo: anormal.

“Lá vem um preto dirigindo um carrão importado”.

Patrão, ladrão ou empregado?

Um pobre a espreita num restaurante refinado.

Roubo, fome ou lugar errado?

Uma aprendiz de puta chora o leite derramado
                              (Das sarjetas de suas tetas),

No vazio de seu ventre sem um ente desejado.

Chora, a noite, chora, para que as lágrimas varram a sujeira embora
           pretos pobres putas

“chora, noite, chora, enquanto ninguém te escuta!”

...hoje
        a modernidade respira
        um tipo diferente de mentira
                                  chamada evolução.

        pretos pobres putas e viados
        gordos branquelos sapatas e aleijados

Riso fácil entre os dentes
Punhal apertado na mão.
A modernidade se traveste de embuste
Um travesti chamado evolução.
O lábio ri enquanto passa
O comboio dessas sub-raças
O espólio generoso da desgraça
Ardendo em brasa a tolerância carvão.
        Riso entre dentes cortando a roupa
        Punhal cuja ponta se estica a partir da boca
        Destilando ódio, veneno, segregação.

pretos pobres putas viados          branquelos carecas sapatas aleijados
mendigos moleques pivetes desempregados:

gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado...

Faz-se o silêncio e o silêncio permanece calado.

é o filho do vizinho que é viado
é do pivete de rua o prêmio do vidro quebrado
e para o desempregado? ao quadrado, ao quadrado,
o jornal de ontem, os classificados, o prato vazio, o portão fechado
o semblante levemente desconfiado, ao quadrado, ao quadrado,
cuidado! (ele pode estar armado).

Faz-se o silêncio e o silêncio permanece inquebrantado.

cego para a menina sem namorado
cego para os corpos avantajados
cego para os humildemente magros
cego para os cabelos rari-ficados
cego para os descorados
cego para os excessivamente corados
cego para os que não são
cego para os que são exacerbados
                           cego para os que não se encaixam
                           no molde pré-determinado
                           perfeito correto justo belo validado
                           aceito permitido bem-vindo corroborado

                                  a modernidade se veste
                                  com uma pele que serve ao mesmo
                                  propósito passado.

cega!
um risinho lacônico, um comentário debochado.

pretos pobres putas viados          branquelos carecas sapatas aleijados
mendigos moleques pivetes desempregados:

gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado...

talvez o futuro seja uma incógnita hipotética
e as grandes lições sejam verdades patéticas
talvez nasça um girassol no Atacama
talvez antes disso a terra se consuma em chamas.

Futuro é vento soprado de pleno pulmão
Que move o mundo e as grandes revoluções.
Gente não é gado
Não importa o tamanho do cercado
O pasto, a marca, o cabresto, o arado, o tipo de ração...
Gente é universo que explode,
  inspira, transpira, ferve, vibra, fode,
Gente é mais que roupa, rótulo, posse, aceitação,
Gente é aquilo que pensa.
(A menos que pense que não).

pretos pobres putas viados           branquelos carecas sapatas aleijados
mendigos moleques pivetes desempregados:

pode ser gado, pode ser gado, gado, gado, gado, gado, gado, gado...

Talvez a diferença seja justamente esta
Saber a quanto de gado cada um se presta.

No lado “b” do disco a faixa mais espúria,
O som das patas do gado
Levando no peito o arame farpado,
Cabrestos, rótulos, olhares atravessados,
Deixando de ser gado para ser uma manada em fúria.

Deixando de ser gado para ser semente.

Pretos, pobres, putas e viados,
Branquelos, carecas, sapatas e aleijados,
Mendigos, moleques, pivetes e desempregados:

Gente, Gente, Gente, Gente, Gente, Gente, Gente, Gente...



terça-feira, 20 de julho de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


CATECISMO DE FIO E CORTE

Entender a língua das navalhas
Pela lâmina.
O idioma dos punhais,
O vocabulário secreto dos garrotes,
Pelo uso
Ou pela simples interpretação de sua presença
Em versos agudos.

Apreender de um espinho
A carícia pontuda.
O desejo dele.
Falo, falo por completo, de corpo inteiro,
Fazendo prazer em toda carne
Em toda parte.
Gozando ponta para dentro
Fundo. Até o pé.
Feito uma rima boa
Ou uma idéia iluminada.

Esmiuçar o mistério das farpas
Com as unhas.
O irrevelável dos cacos de vidro
E dos pregos oxidados.
Sabê-los com a alma
Ou com os calcanhares,
Se todo o resto não bastar.
Descobrir a letra que falta
Antes da hora,
Antes que seja tarde.

Deslindar da pólvora o perfume
Do fogo esgotado.
Do fogo apenas
Ou da ausência do fogo.
Cheirá-la depois de morta,
Domesticá-la, desmistificá-la.
Cantar para que vire pó
Pólvora cremada.
Lançar-lhe as cinzas ao mar
Enquanto a declama.

Captar o derradeiro suspiro
Do poema,
Seu passamento antecipado.
Sua matéria inevitavelmente esfriando
Sob a pele das palavras.
E, já apodrecendo, suas unhas
Cabelos e métrica.
Ouvir-lhe a leitura do testamento
Com lágrimas nos olhos.
E secretamente,
Muito secretamente desejar
Ser-lhe o único herdeiro.

Reter no peito o angustiante sentimento da poesia
Nem que para isso seja necessária
Uma faca
Metida até o cabo.


POEMAS (QUASE) RECÉM-NASCIDOS


FESTA DE SÃO FIRMINO

Amigos que te viraram as costas
Bebem no bar a aguardente que era tua.
Festejam-te a ausência.

A mulher que te amava
Desliza, fricciona a pele delicadamente
Contra outra pele, pêlos
Que não são os teus.

E Judas também te traiu.
E o que era para ser-te um beijo de amor
Tornou-se a flor exposta de tuas fragilidades.
Entregou-te o coração em ânfora de barro.
E os cães o cheiraram. E os homens se riram dele.

Teu cavalo se recusa
A dar-te lombo, trote, fuga.
Tem o coice pronto à tua têmpora.
Está velho e fraco,
Contudo, não aceita
Ser a montaria de um derrotado.

Vês os touros?
É a hora.

Arranca tuas últimas roupas
Como se raspasse os pêlos, um pouco de pele e carne.
Desfaz-se de teus sapatos e de tuas meias sem par.

Tens as calçadas e as janelas
Por testemunhas
Os olhos incrédulos de teus acusadores
Como juízes imparciais.

Avança! Avança, homem.
Volta-te, ao contrário da multidão,
E confronta os touros debandados.
Um deles há de ter o chifre perfeito
Para que teu peito seja perfurado.

...

No bar, a aguardente já não desce.
A mulher enxuga o rosto com encardidos lençóis.
Antevendo a corda, Judas estremece. Escurece ao meio-dia.
Sobre cela fria, sob os olhares baixos dos juízes e da malta
Estende-se a única bandeira que falta. Seu corpo nu, pisoteado.
...E o cavalo o conduz delicadamente, como o fizesse à última [Godiva.



terça-feira, 22 de junho de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


ATRAVÉS DO ESPELHO

Toca a minha mão. Vem!
Que hora é essa em que a tua face pálida
Me ausculta o mínimo pensamento
E até mesmo o silêncio me consegue ouvir?
Ah, pois então, se é a tua, a minha voz,
E se nossa, em uníssono, se vai morrendo devagar
Antes mesmo de ser gutural,
De escapar-se pela goela e dela fugir.
Pois então, se é assim,
Toca, e apenas toca, a minha mão.
Vem!

De onde me conheces, pergunto, de onde?
Que tanto sabe e, por isso, tanto bem me olhas
Cavando o máximo de escondido que há em mim?
Há rugas em meu cenho, e sei, e sei que há
E sei que outras hão de vir, marcar-me a ferro e a tempo,
Tornar-me escravo delas pelo resto de meus dias.
E tu me olhas, e tão somente, e me olhas muito,
Conhecendo-me melhor que quem me tenha concebido.
E eu pergunto, e torno a fazê-lo:
De onde me conheces?

É tarde, sim, o sei. Concordas?
Tarde para tudo e cedo para quase nada. Nunca.
Se ao menos teu olhar te resgatasse de meus olhos
E o levasse para distante, para o ignorado,
E me deixasse por aqui, diante da prata lisa e sem imagem,
Se ao menos isso... Fosses apartado de minha pele,
Desatado de minha carne,
Afastado de minha alma pelo tempo necessário ao descanso.
Mas já é tarde e, sim, o sei. Concordas?

Vai-te de uma vez, te imploro, vai!
Deixa descansarem os meus nervos tenros,
E sobremaneira, deixa que se dobrem os meus joelhos,
E mais, e mais, deixa que se extenuem as minhas lamentações
Até deixarem de ser.
Pois tens diante de ti um outro homem,
Um homem sem reservas e sem poderio algum.
Espólio de si mesmo, imensurável, urgente e agudo.
Incapaz de compreender a tua presença,
De desvendar o teu gesto mais sutil,
De encarar-te com a coragem que mereces.
Vai-te, é o que te ordeno. Vai-te de uma vez. Vai!

Ignoras, por certo. Ou talvez?
Vês-me aqui, como estou, de pé e fragilizado?
Ou tens, talvez, outra consciência, que não esta,
De que cá estou, completamente fragilizado?
Não sabes. E não sabendo tem pouco que me dizer.
Pouco. Por isso, esse escasso, de nada serves.
Só a minha mão conseguirá atravessar tua cortina de vidro
E te libertar. Só a minha mão sangrando contra os cacos.
Mas eu te deixarei aprisionado. Ignorar-te-ei,
Porque sou um outro homem para além de ti.
Homem áspero demais. Demais até.
Incapaz de suportar a doentia intensidade,
O brilho e a crueza insana do próprio reflexo.
E isso é o que ignoras, por certo.
Ou talvez...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


NAU FRÁGIL

Que importa o mar
Pontilhado de amarelo
E a cidade estrelada de baixo para cima?

A ponte que nada atravessa,
Com suas costelas férreas e finas.
Longas, visíveis, viscerais?

De que adianta o céu límpido
A lua nova vestida de pérolas
Ou as nuvens penduradas em varais
Nos cumes da ilha?

Que importam a beleza,
A quietude, as maravilhas,
Se a cabeça dói como o diabo
E a alma amedronta a noite
Com seu silêncio pesado?

Que importa a paisagem
Se tudo é passagem
E o que resta é a ponte fechada
Ligando o nada ao ignorado?

Que importa, afinal,
O olhar do homem que, sentado,
Tenta iluminar a noite
Com seus olhos?

Que importam a pergunta e a resposta
Se só a ignorância salva?
Importam os dedos frios?
Importam as mãos alvas,
Quando tudo mais é desconforto?

De que vale o pleno governo sobre o corpo
Se a cabeça dói e a alma, em coro,
A acompanha?

De que servem a ilha,
O continente
E meu olhar que os apanha
Se nada é capaz de me salvar?

- De resto é o mar...

Dentro, fora,
Em todo lugar.
(Afogando a calma,
Fazendo-a afundar).

terça-feira, 25 de maio de 2010

POEMAS TARDIOS


CONTRAPONTO

De um lado o peito
Do outro a mão
No meio
A faca.

De um lado o efeito
Do outro a ação.
No meio
A faca.

De um lado o feito.
Do outro a ilusão.
No meio
A faca.

De um lado o peito
Do outro a mão.
No meio, não!
A faca, não!

O corte estreito,
A incisão
E o cabo
(Uma estaca).

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


NATUREZA SELVAGEM

Fogo e pólvora se entreolhando.
Enamorados, lascivos,
Prontos a acasalar sob metais pontiagudos.

Cão raivoso cuja coleira está prestes.
Amarras que tendem a ceder
À força dos trancos
Do ranger de dentes e da escuma.

Grande libélula, ou pássaro, ou flor.
Dotados da poção mortífera,
Do mais letal dos venenos,
Da sedutora aniquilação
E da beleza.

Diamante de ponta de lança.
Ouro de adaga afiadíssima.
Prata no fio agudo das navalhas,
E outros metais e outras gemas
Igualmente contundentes
Propícios para flechas.

Eis a máquina diante do espelho
Com seu elmo de penas negras
Dos corvos sacrificados,
E eis seus olhos cintilantes e vermelhos,
Pacíficos, perenes, inabaláveis.
Couraça de ossos e dentes,
Pele áspera, urticante. Coração macio.

Bicho homem,
Completo. Inteiro.
Desvendado.
E nu.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

DA SÉRIE: POESIAS INACABADAS


O LEÃO

Sob a manhã de ouro e poeira,
Rasteiro como a savana incandescente,
- Perdido nela – oculto e rei,
O leão lambe as chagas.

As sombras da noite ainda vingam.
Fome, feridas, desassossego,
- Sangue na língua – o próprio sangue,
E a lancinante dor que não se apaga.

O cheiro de carne aguça os dentes,
As garras, o instinto primordial.
E a fome ainda, ainda, e ainda o cansaço.
O peso do tempo é o que o esmaga.

Ruge e urina e esfrega o dorso
Nos troncos antigos das velhas árvores.
Cumpre seu direito, monárquico, ancestral,
Indiferente ao fato de que a vida acaba.

É um rei, sem dúvida, e sangrando
Aguarda, altivo, quem o desafie.
Acercam-se hienas, dispostas, regougando,
Ávidas de tudo, de seu sangue e plaga.

Apenas a morte terá como herança
As fibras gastas e o couro curtido.
Terão de matá-lo antes de comê-lo.
- Um rei não se rende. Um rei não arreda.

Porque a vida se compra é com valentia.
Mesmo que, de resto, sobrem pêlos, ossos.
O sangue negro sobre a terra seca
Será a moeda com a qual foi paga.

E quando, por fim, a savana pressentir,
E o cheiro do sangue atravessar o vento
Irá se curvar, pois o rei foi morto.
Mas não foi vencido. - Um rei não se entrega! -.