"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


LÍRICA ESPESSA

Dias em que a existência tem curta alna,
A paz faminta, içada aos chifres de um gnu,
Jejua. Fome análoga à do abaporu
Ou outro bicho de semelhante fauna.

Passado e futuro escapam da palma.
Tenta decifrá-la um feiticeiro hindu,
Mas só enxerga a pele e o tecido cru
Que, ágeis, se dissolvem feito a calma.

Dias em que a quietude se curva ao trauma,
E o sossego tem tez de mandacaru,
Que a inquietação erige seu primeiro iglu
Na ancestral geleira onde não há vivalma.

Dias assim, quando se cala o uirapuru,
Quando os olhos incham, corados em acaju,
E seu canto ausente nos reacende a encauna.

Nesses dias a aflição recria seu tabu.
Imagino-me um homem que, seminu,
Lentamente se despe da própria alma.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


BLUES, BLUES

(quase uma oração à Santa Nina da Almas Aflitas).

Papoulas diabéticas
- Nem tão doces -
Insulinam os meus olhos.

O blues se travestiu
De adaga,
Enterrou-se em minha omoplata.
A voz da mulher
Tem pregos,
Um para cada ouvido.
O resto para o íntimo,
Oxidá-lo.

Fui lançado ao mar
Com os pés concretados.
Era a melancolia
Me arrastando para baixo.
- Blues, blues!
Eu suspirava,
Engolindo-o.

Na superfície
Cravos de papel-crepom
Se dissolviam:
Sal-grená,

E o blues, o blues!
Pobres gaivotas – contaminadas.
Miseráveis mergulhões
Terrivelmente intoxicados
Pela beleza rascante.
Fiz um buquê de suas asas
E o incendiei.
Libertei-os de voarem.


Letargia hipotérmica.
- Deliro –
Penso numa banheira morna
De vidro estilhaçado.

E a mulher cantando
Com a bílis,
Com os ovários.
Os bicos dos seios decepados
E o coração escorrendo deles
Metade para cada lado.
Era um blues
Que ela apertava no ventre
Para que não descesse pelas pernas;
Pudesse gestar pacificamente,
Dar à luz.

E eu,
Enlouquecido de cálcio
E de carbono,
Ossos moídos,
Espírito esfolado,
Inventava talas,
Cataplasmas,
Curativos de blues.
Punha gaze nos suspiros.

Onomatopéias bárbaras
- Angustiantes –
Roçares de unhas sobre o metal enferrujado.

O blues arrastou o cão,
Deitou dedo no gatilho.
Deu-me seis tiros
E eu manchei de azul o crepúsculo,
Ferido.

...E a mulher também.



segunda-feira, 9 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


OS AFAZERES DO DIA

De tarde
Sentar-me a beira poço.
Tirar água
Com os olhos
E dar de beber
Aos sonhos.
Não deixar que faltem migas
Em seu cocho.

De noite
Dar-me com um penhasco.
Besuntar unguento
Em sua garganta
E acalentá-lo
Contra o peito.
Não descuidar de sua tosse
Nem dos ecos que provoca.

De madrugada
Sucumbir contra um cinzel.
Deixar que lapide
Entrelinhas
E afaste as camadas
Que impedem a alma de brilhar.
Cuidar para que os baques
Não acordem a vizinhança.

De manhã
Ascender redemoinhos.
Salvar da fogueira os ciscos
E acompanhar, contrito,
A escuridão ruir.
Alimentar o dia para que não desmaie
Antes da hora.

De tarde...
Um oroboros.

POEMAS RECÉM-NASCIDOS



A REINVENÇÃO DA RODA

É preciso
Um outro sentindo.

Reorganizar antropologicamente
O universo.
Que uma nebulosa
Possa ser transplantada na medula espinhal
De um abismo
E que este se levante,
Caminhe ereto sobre as pontes
Deixando-as constrangidas.
Que nas tolices
Nasçam cabelos negros
E dos homens
Brotem rosas
Por todos os nervos.

Dar às insignificâncias nomes próprios.

Redimensionar a ignorância
A partir do treino.
Conceber que um antílope ou um javali
Tenham tantos sentimentos conturbados
Quanto um mercador de caças
E que pela ausência
De palavras para expressá-los
O fazem com chifres
E dentes.
Que são delicadíssimos os lábios da esperança
E só se deve beijá-los
Com detida leveza.

Cobrir com veludo as noites insones. Servi-lhes chá.

Reorganizar sobre o ladrilho
A matemática.
Equações que sirvam tão bem à ciência
Quanto a uma criança.
Que a geometria dos cactos, das árvores de Josué
E dos besouros de esterco
Forneça resposta incontestável
Aos enigmas essenciais:
Espinhos, eternidade, excremento.
E que a resposta seja metáfora
De um triângulo isóscele.

Riscar a amarelinha sobre as mesas de trabalho.

Desconstruir a verdade
Em bacias d’água.
Que uma lei seja admitida
Como colar
Ao invés de forca
E possa caminhar desnuda
Entre os transeuntes
Sem que lhe apontem
Ou riam de suas vergonhas úmidas.
Que a ingenuidade produza leite,
Seja ordenhada todas as manhãs,
E velhos e moços bebam.
Ganhem bigodes de escuma.

Coroar o absurdo com flor de laranjeira.

É preciso
Um outro sentido
Às pernas e ao espírito.
Para que deixem de amassar o barro,
De marchar sobre a mesmice.

sábado, 7 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


VISCERAL

De antes de o esqueleto ser concebido,
De ter a alma na bigorna modelada.
De antes que apercebo cada pancada
Tinir pelo cordão do meu umbigo.

Primeiro à fecundação, à placenta
Onde deitaram-se células e o ovo
Se fez. Primeiro, e desde muito novo,
Meu espírito de brasas se alimenta.

De antes da consciência de existir.
De ser. Crescerem-me os cabelos,
De antes disso se apóia em meus cotovelos
Angústia implacável e sem elixir.

Primeiro às vísceras e ao embrião,
Feito um castigo ao erro primordial
É que pressinto o mundo, e visceral
Se desintegra, urgente, o meu coração.

De antes da fúria e da necessidade
Incontrolável de explorar entranhas
Antes da vida, essas vontades estranhas,
Perseguem-me desde a antiguidade.

Primeiro a qualquer outro sentimento,
De antes da ânsia, da polução noturna,
Sangro em fel, uma pungência taciturna,

Hemorragia, incurável ferimento.
Ácido no peito. Rompida a urna.
Ardência que não cessa um só momento.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


O RINOCERONTE

Ontem.
Como um rinoceronte
Marchando atrás de mim
De chifre e lança.
O marfim do passado
Sinto-o rente
Aos rins.

A pele que não morre,
Os cascos que não cedem.
Uma adiante se alastra
Outros demarcam a trilha.
Eu avanço para longe,
Mas retrocedo.

Horas derretidas.
O muco, a escuma
Que o animal projeta
Em meu fadário
Lembram-me líquidos,
Hidrofobia ancestral.

O rinoceronte avança

Agitam-se em suas guampas
Fitas amarelas.

É o passado
Acenando delas.

Minhas savanas
Terrivelmente secas
O seguem. Intactas.

Monto o bicho
E atarraco-lhe as orelhas.
Cavalgo para o futuro,
Galopo sobre o passado
Sou o arreio do presente
E as peias
Que os atrelam
Um ao outro.

Marcha descontrolada
A fera.
Abre o ventre do tempo
Com seu punhal agudo.
Eu lhe recolho as tripas.

Vísceras do destino
São novelos.

Hei de tecer com elas
O meu manto e o meu fado.
Sobre o lombo do passado
Serei ginete.
Entre meus dedos
Fitas amarelas.

Até que venha o dia
Em que o rinoceronte
Amansado
Perderá seus cornos.

Dia que comerá de minhas mãos.
A ração que eu lhe der.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


AS SETE LIÇÕES DO SILÊNCIO

1.
Insetos falam por metáforas:
Casulos para palavras de olvidar,
Envergonhadas.
E ferrões
Para que inchem.
Eu aprendi na pele.

2.
A voz dos répteis é ocre:
Uma serpente sibila
Vermelho-ferrugem.
Os lagartos, por sua vez,
Cospem aridez de cascalho.
Eu descobri tentando.

3.
A mudez das árvores é mentirosa:
Suas raízes gemem no chão e gozam.
E as folhas, as folhas caídas
São espasmos
Do coito.
Eu ouvi de um cipreste. Depois de currá-lo.

4.
Granito macho canta
Para atrair a fêmea.
Copulam de longe.
Do gozo das pedras nascem
Os espaços entre elas.
Eu os gero na alma.

5.
Águas soluçam intimamente
Enquanto correm.
O mar as desprezará.
Um riacho manso há de ser sal.
Um rio esplêndido há de ser sal.
Eu compreendi com lágrimas.

6.
Estrelas são sereias prateadas:
Atraem olhos desavisados.
Os seduzem.
Arrastam seus barcos e os devoram
Murmurando notas de encantar.
Eu entendi quando me cegaram.

7.
A palavra é de carne.
O homem que apreende o silêncio
É capaz de escravizá-la.
Rosna violentamente para ela
E ela se esconde em seu fígado.
Eu cogitei que fosse. E era!



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


O DICIONÁRIO DA FUGA

Fugi para a tundra
Ver a noite se erguer.

Meu pai içou-me pelos pés
Quando nasci
E disse: ei-lo!
Antes de atirar-me aos lobos.
E eu, coberto ainda
Pelas vestes rubras do nascimento
Reinei sobre eles com manto cor de rubis.

Fugi para a mata
Ouvir o vento gemer.

Árvores centenárias
Cobriram de pólen
Os meus poros
E eu frutifiquei.
Raízes nasceram-me nos cabelos,
Foram aos céus
Fustigar as nuvens,
Fazê-las salivarem
Sobre meus cachos
Baobás.

Fugi para a caverna
Beber com a escuridão.

Assentei-me ao seu lado;
Curvamo-nos na direção do charco,
Sorvermos.
Depois rimos, murmuramos confissões.
Olhos correspondidos – idênticos –
Éramos siameses.
E morcegos avoaram, festivos.
Trouxeram-nos frutos e sementes.
Guano.
Crescemos emendados.

Fugi para o deserto
Encantar escorpiões.

Meus companheiros
Ao se depararem com minhas pegadas
Gritaram: ei-lo!
Depois voltaram suas caravanas
Na direção oposta.
E eu, cuja sede
Sugava dos músculos a derradeira gota
Dei de beber às serpentes e à areia.
Urinando sobre elas
Demarquei minhas fronteiras.

Fugi para a montanha
Assistir ao sol se rebelar.

Seu primeiro raio
O aparei com olhos bem abertos.
Escoltas de açores
Renderam-lhe homenagens.
Abelhas lhe coroaram a fronte dourada
E eu, pacificamente sentado,
Enfrentei-o.
Esperei que ele me cremasse.

Fugi para o mar
Tornar-me veleiro.

O bom Deus dos náufragos
Deu-me à tempestade e aos raios.
Não antes de experimentar as minhas fibras
Bradou: ei-lo!
Conjurou sobre mim sua melhor tormenta
Quando eu, ainda moço,
Esboçava madeira em meu fino casco.
E eu domei as intempéries.
Tornei-me o capitão
A vela e a âncora.
Navio fálico nos lábios do oceano.
Plácido. Teso. Preservado.


Um homem inteiro.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


A ADMOESTAÇÃO PELO CHICOTE

Venha ver-me agora
Momento em que o mistério me coagula
O sangue nas artérias.
A voz forjada
Retine em circunstâncias de fogo
Palavras capazes de queimar.

Venha achegar-se de mim
Antes que o mel da virtude
Me ponha cáries no espírito
E eu lhe perca os dentes.
A ferocidade
Em prótese se torne.

Venha provar do leite
Meu alimento.
Do pó de vidro que o adoça,
Faz da garganta espelho
E da úvula
Pêndulo de cristal.

Venha escutar-me a canção
Do martelo sobre a alma
Vibrando-lhe a espinha tênue.
Ouvir rangerem-lhe as vértebras
Quando angústias se instalam
E hérnias querem ser.

Venha testemunhar-me
A rendição.

Sou um serviçal da poesia
E lambo o chão
Onde ela cospe.
Cheiro suas peças íntimas ainda mornas,
Lavo-lhe os pés com olhos baixos,
Tomo de seu prato
Os restos, e me farto,
Profundamente agradecido.

Sou-lhe submisso
Operário de seu aborto.
Pajem de seus filhos rejeitados.
Corto-lhes e enterro sob as rosas o cordão umbilical.
Banho-os com saliva e lágrimas.
Embalo-os e canto até que durmam
E eles dormem
Tendo minha pele como cobertor.

Eu sou um poeta escravo
E o sacerdócio dos poetas
É sangrar
Enquanto a poesia os chicoteia.

Sem um gemido sequer.



domingo, 1 de agosto de 2010

POEMAS DE VIAGENS


ARQUEOLOGIA POÉTICA

Para a datação precisa da poesia
Descoberta
Carbono quatorze.
Sete léguas de paciência.
Sete dias de opressão.
Sete palmos.

Arqueólogos estrábicos conservarão
Oculta
A verdade irrevelável da poesia:
Dez mandamentos secretos
Doze testemunhas reverentes
Sete palmos.

O futuro irá seguir-lhe o rastro das ataduras
No sarcófago
A poesia mumificada. Mãos sobre o peito.
Três discretíssimas orações
Nove pragas irreconciliáveis
Sete palmos.

Gerânios atômicos de papel e letra
Nascerão
Espinhos nas palavras. Poesia afiada.
Dois comprimidos anti-inflamatórios
Um minuto de silêncio
Sete palmos.

Sete palmos acima da razão
(Será desenterrada).


De Chapecó-SC.