LÍRICA ESPESSA
Dias em que a existência tem curta alna,
A paz faminta, içada aos chifres de um gnu,
Jejua. Fome análoga à do abaporu
Ou outro bicho de semelhante fauna.
Passado e futuro escapam da palma.
Tenta decifrá-la um feiticeiro hindu,
Mas só enxerga a pele e o tecido cru
Que, ágeis, se dissolvem feito a calma.
Dias em que a quietude se curva ao trauma,
E o sossego tem tez de mandacaru,
Que a inquietação erige seu primeiro iglu
Na ancestral geleira onde não há vivalma.
Dias assim, quando se cala o uirapuru,
Quando os olhos incham, corados em acaju,
E seu canto ausente nos reacende a encauna.
Nesses dias a aflição recria seu tabu.
Imagino-me um homem que, seminu,
Lentamente se despe da própria alma.









