"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS


O RINOCERONTE

Ontem.
Como um rinoceronte
Marchando atrás de mim
De chifre e lança.
O marfim do passado
Sinto-o rente
Aos rins.

A pele que não morre,
Os cascos que não cedem.
Uma adiante se alastra
Outros demarcam a trilha.
Eu avanço para longe,
Mas retrocedo.

Horas derretidas.
O muco, a escuma
Que o animal projeta
Em meu fadário
Lembram-me líquidos,
Hidrofobia ancestral.

O rinoceronte avança

Agitam-se em suas guampas
Fitas amarelas.

É o passado
Acenando delas.

Minhas savanas
Terrivelmente secas
O seguem. Intactas.

Monto o bicho
E atarraco-lhe as orelhas.
Cavalgo para o futuro,
Galopo sobre o passado
Sou o arreio do presente
E as peias
Que os atrelam
Um ao outro.

Marcha descontrolada
A fera.
Abre o ventre do tempo
Com seu punhal agudo.
Eu lhe recolho as tripas.

Vísceras do destino
São novelos.

Hei de tecer com elas
O meu manto e o meu fado.
Sobre o lombo do passado
Serei ginete.
Entre meus dedos
Fitas amarelas.

Até que venha o dia
Em que o rinoceronte
Amansado
Perderá seus cornos.

Dia que comerá de minhas mãos.
A ração que eu lhe der.


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