"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

sábado, 28 de agosto de 2010

POEMAS RECÉM-NASCIDOS



Desdobramento de uma conversa matinal.


COISIFICAÇÃO

Por um dia que fosse.
Abraçar o sentido da matéria inominada.
Alto e delicado
Feio o fio que equilibra
A pipa no céu
A criança no chão.
Mas não ser pipa nem criança,
Apenas fio.
Ciente do risco de arrebentar.

Por algumas horas, talvez,
Assumir um objeto como corpo.
Pálido e significativo.
Uma vela de procissão
Chorando quente em mãos devotas.
Somente vela.
Nem mão e nem fé.
Ir queimando como tantas outras
Até ser apagado.

Por instantes me bastaria
Que me comparassem à coisas.
Como um lápis ou um giz.
Não, não um lápis ou um giz;
O carvão, seu intestino,
O calcário, ânimo do outro.
Servir às folhas e às calçadas
Sem nunca me tornar
Folha ou calçada.
Entregar para desenhos e palavras
Todas as células.

Um átimo. É só o que peço
Para retornar ao elementar,
À origem indiscutível da simplicidade.
Poça que reflita lua,
Gota onde borboletas se saciem.
Jamais ser lua ou borboleta.
Água. Apartada de todas as fontes,
E sob as flechas do sol
Evaporar.


13 comentários:

Vera do sulllll disse...

Agnaldo!
Evaporar,não,não. Continuar a ser poça, alimentada pela chuva fininha...fininha, para que muitas , muitas borboletas venham saciar sua sede. Para que sua imagem se reflita nela
Boa Noite.

Lulu disse...

Huuummmm.... você me perdoa a ousadia de um comentário? Bom... numa avaliação muito subjetiva, acho que "reificação" cairia melhor como título de sua poesia. É menos... como dizer? huuummmm.... menos contundente... e mais congruente com o contexto do poema.
Tou perdoada pela ousadia?
Bjs

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Oi Vera,

A opção é boa, de verdade, uma poça tem certa dignidade, porque mesmo sendo composta de sobras, consegue refletir sol e lua, da mesma maneira que o mar.

Tem seu valor, como costumo dizer.

Super beijo,

Linda noite no Sul, no nosso Sul.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Lulu,

Não há o que perdoar, absolutamente.

Me interessa a opinião de pessoas que têm o que dizer e dizem, sem meias palavras.

Como você bem disse, o título é mais contundente que o poema, e é justamente essa a intenção, fazer com que haja um contraste imediato, com que ele seja sentido e num crescente vá diminuindo (controversos os termos, não?) de intensidade e tensão.

Mas, veja, uma vez exposta, a poesia ganha nova vida, que é o entendimento e o sentimento de quem a lê, por isso mesmo que te disse no início que não há o que perdoar, afinal foi essa a vida que ela ganhou em seus olhos e é dessa maneira que ela existe para você.

Agradeço demais por ter partilhado sua impressão comigo. É maravilhoso notar quando as pessoas não passam simplesmente pelo texto, quando ele adquire tônus na voz de outra pessoa.

Super beijo nessa noite de sábado.

Dias lindos e ensolarados, noites brancas e vida intensa.

Lara Amaral disse...

Senti-me a própria pipa ao ler seu poema, precisei buscar uma coisa, e a pipa veio a mim, para eu ser coisa. Senti-me ela, a voar, mas com uma linha, sempre para me puxar contra o vento, para me trazer de volta.

Beijo, nobre poeta.

Eliane Furtado disse...

Bom dia Espelho Espelho Meu.
domingo é dia de olhar o mar sem pressa, de sentir o sol do final do inverno e apreciar a vida andando diante de você. Que maravilha.
Um beijo Aganaldo dos Espelhos.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Lara, Lara, Lara,

Cuidado que o fio sempre quebra...

Mas, no final das contas, não é o risco que deixa a vida interessante?

Bom tê-la por aqui.

Super beijo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Oi Eliane,

Acertou em cheio. Domingo é dia de se coisificar de verdade. Ser pedra a beira do mar, ser lagarto de tronco, ser móvel e, desculpe o semi-cacófato, ficar imóvel, sem grandes obrigações intelectuais e, principalmente, sem pressa.

Que bom que você abriu uma exceção em seu domingo e veio me visitar.

Floripa está embaçada, com uma insistente fumaça que há dias nos tem perseguido.

Olho para as baías sul e norte, para a ponte Hercílio Luz, tão abandonada e projeto um dia muito preguiçoso. Vou lá, ver se é isso mesmo.

Super beijo.

Lulu disse...

Bom dia, poeta. A poesia traz em si o sentimento do autor (assim como as estátuas têm sangue e nervos), e o que a caracteriza como poesia é o autor passar esse sentimento, sua angústia, seu enlevo no momento da criação para a pessoa que a lê, senão seria apenas uma simples versejadura. Eu costumo dizer em relação à poesia: "felizes os que a entendem!" Pois o que ela passa é o que Clarice Lispector chama de "não palavra", a entrelinha, o que não se escreveu, o que Paul Klee define como "visível no invisível". O sentimento que me tomou foi o que você me passou com sua "não palavra", foi o que eu vi no invisível , daí o meu comentário... muitas vezes o poeta tenta escrever algo que reflita um sentimento consciente, mas esquece que tem outros que não chegaram ao nível da consciência... que ficam inexoravelmente incrustados naquilo que ele criou. Não sei lhe dizer o que você me passou, está no campo do inefável, do inenarrável, da intersubjetividade... mas fez com que eu achasse "reificação" mais congruente.
Beijos, tenha um ótimo e produtivo domingo.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Oi Lulu,

Você me deixou "cabreiro" rsrsrsrs...

Vou me debruçar um pouco sobre o tema de nossa conversa e refletir mais profundamente. Quem sabe dessa reflexão não nasçam coisas novas...

Gosto disso. De reencontrar sentidos. As subjacências me atraem sobremaneira, especialmente aquelas difíceis de serem descobertas.

Ótimo domingo,

Super beijo.

Lulu disse...

Não apenas reencontrar sentidos, mas "ressignificar".... fazer cair as vendas.
Beijos dominicais.

Jullia A. disse...

SUa producao 'e tao constante e tao intensa. A quallidade dos seus poemas sao altissimas. Morar detro dos teus pensamentos deve ser enlouquecedor.

AGNALDO NO ESPELHO disse...

Júlia,

Às vezes penso nisso... Mas me considero tão cotidiano, tão banal, tão absolutamente água com açúcar que não passa da segunda linha o meu pensamento sobre o assunto.

De fato, outros moram em mim e falam, falam muito. Para não os entristecer, escrevo.

Super beijo.

Não deixe de aparecer.