Petra subiu à torre para orar, Para orar ao próprio reflexo E, enquanto orava, reconheceu A deidade que a habitava.
Petra subiu à torre para olhar, Para olhar o próprio reflexo E, tanto que olhasse, mais e mais Ele se gastava Contra o céu no horizonte em chamas.
Petra subiu à torre para ornar, Para ornar o próprio reflexo E, ornasse com fitas, laços ou flores, Ainda assim lhe pareceria Desoladoramente opaco, Brutalmente liso e regular.
Petra subiu à torre para ocupar, Para ocupar o próprio reflexo E, no termo com que avançava, Mormente se perdia em si – ou de si. Um barco rumo ao nevoeiro, Um pássaro contra o sol, Um seixo atacado ao rio.
Petra subiu à torre para observar, Para observar o próprio reflexo. Observar-se, mutuamente, com o que não era. Feito bolha de sabão Que por meio enigmático pairasse Diante dos olhos indecifráveis Da mais indecifrável de todas as gárgulas Da torre onde Petra subiu.
Quantas vezes as esfreguei contra rochas para marcá-las,
Quanta falta me fez a linha do destino
E a linha da vida
E a linha do coração.
Tanto desencanto pela pura inexistência
De identidade.
E me constrange como se estivesse ainda nu
E sempre tivesse estado nu.
Constrange-me por não passar de uma luva.
Os sinais que ora enxergo
Parecem de uma falsidade irremediável
E titubeio
Entre permanecer com as mãos lisas, a identidade inexpugnável,
Ou aceitar tal pele sobreposta à minha e desejar
Desejar ardentemente que ela me revele
O irrevelável.
Recebo, consternado, de tua mão
A marca da minha própria.
E nada do que vejo sou capaz de reconhecer
Assim como, se levasse ao rosto as palmas recém-marcadas
Elas também não o poderiam reconhecer.
De que adianta, então, ter de volta as linhas
E os calos e os vincos e as cicatrizes?
De que adiantam habilidades táteis
Quando o que se quer é a luz?
[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]
NOTA:Tenho o coração confortado pelas pessoas que não deixaram de vir à minha casa enquanto eu mesmo estive fora... Vocês cuidaram dela para mim. Tenho vindo pouco, mas sinto o cheiro de cada um que passa por aqui. É festa sensorial e alento para meus dias velozes. Obrigado!
Tornava para casa depois de um dia de quase tudo. Um dia de agenda. Nem bem atraquei à margem do portão, me interrompe o moço da guarita. Desço o vidro do carro e ele me estende o pacote.
Mas, quê? Pacote parto, por essas bandas onde ninguém me sabe o nome? Quando me escrevem – os que me escrevem – o fazem por meios mais ágeis. Mandam recados eletrônicos. Mas o pacote tinha marcas de mão. Entrei, estacionei. Li o destinatário (para ter certeza de que não era engano). “Bom, é para mim!” Concluí.
Tanto tenho me habituado às distâncias silenciosas que chego a desacreditar em cartas. Tudo em meu universo vagarosamente se tornou virtual. Nesse universo onde o nada e o tudo coexistem irmãmente, tenho aprendido a amar com intimidade quem não conheço. Como Neuzza Pinheiro e seu “Eukatlan; como Zélia Guardiano – guardiã das simplicidades; como Eliane Elianinha, que forja armaduras enquanto escreve; como Lara, se desmanchando em letras. Como tantos mais que me flecham com palavras pontiagudas.
Mas aquele pacote escrito à mão me arrastou para os subúrbios do universo, como um cão que arrastasse atrás de si, com fome e prazer, a ossada de um mamute.
Entro no elevador e abro. Era a promessa.
Desde o outro lado do mundo, lugar a partir de onde nossas raízes ecoam, a poesia embarcou em caravela moderna e veio desbravar-me.
José Rui Teixeira, descendente híbrido de Camões, Pessoa e Sá-Carneiro atracou sua nau de letras em meu porto, fincando-me bandeira portuguesa. Tornei-me território incorporado, quiçá uma nova “Ilha de Vera Cruz”.
Este poeta teve o cuidado e a delicadeza, próprios dos nobres de alma e linhagem, de cumprir uma promessa virtual, forjada depois de dois e-mails. E eu, que tenho redescoberto a forca inescrupulosa da poesia concebida no coito violento dos teclados recebi, maravilhado, o filho feito matéria deste poeta, seu livro “Diáspora”.
Bem, daí advém o título desta crônica: “José Rui me matou”. Primeiro por dar corpo à promessa; depois pela artilharia pesada de seus versos. Prostrei-me diante deles e fui alvejado direto no peito. Sangrei desde o imaginário e caí, com gozo vermelho vazando da boca e dos demais sentidos. Atingiram-me, primeiro, Zerbino e Ataúde; os demais sacramentaram minha condição de alvo. Alvo da beleza aflitiva, tipo de beleza que descarna e empresta novo sentido ao que se denomina beleza.
Agora estou aqui, desfalecido e feliz. Assistindo nuvens vermelhas roubarem restos de sol. Com razões de sobra para amar ainda mais Eliane, Neuzza, Zélia, Lara, Cecille, Vera e todos os demais.
O virtual existe. Qualquer que seja a forma de se manifestar.
Essas pessoas sem carteira de identidade me provam isso todos os dias. Assim como José Rui Teixeira me provou com seu presente.
A distância não existe e, se existe, as palavras são capazes de exterminá-la.
[Das: CRÔNICAS DO DIA]
Para conhecer um pouco da obra de José Rui Teixeira visite: