"PORQUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO" (Caetano Veloso).

terça-feira, 18 de outubro de 2011

PETRA SUBIU À TORRE




[Imagem: Soap Bubbles - Jean-Baptiste Simeon Chardin
Vídeo: Torn - Natalie Imbruglia]

Petra subiu à torre para orar,
Para orar ao próprio reflexo
E, enquanto orava, reconheceu
A deidade que a habitava.

Petra subiu à torre para olhar,
Para olhar o próprio reflexo
E, tanto que olhasse, mais e mais
Ele se gastava
Contra o céu no horizonte em chamas.

Petra subiu à torre para ornar,
Para ornar o próprio reflexo
E, ornasse com fitas, laços ou flores,
Ainda assim lhe pareceria
Desoladoramente opaco,
Brutalmente liso e regular.


Petra subiu à torre para ocupar,
Para ocupar o próprio reflexo
E, no termo com que avançava,
Mormente se perdia em si – ou de si.
Um barco rumo ao nevoeiro,
Um pássaro contra o sol,
Um seixo atacado ao rio.


Petra subiu à torre para observar,
Para observar o próprio reflexo.
Observar-se, mutuamente, com o que não era.
Feito bolha de sabão
Que por meio enigmático pairasse
Diante dos olhos indecifráveis
Da mais indecifrável de todas as gárgulas
Da torre onde Petra subiu.

Petra subiu à torre.
Para aprender a voar.

[dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

sábado, 21 de maio de 2011

ODE INAUDÍVEL


[Imagem: Ophélia - John Everett Millais
Vídeo: Bachianas Brasileiras - N. 5 - de Heitor Villa Lobos - Amel Brahim] 

Salga esse silêncio
Para que ele dure
E moscas não o comam
Nem botem ovos na flor de seus intestinos.

Esse silêncio em brasa
Avassala. Escravo de sua voz ausente,
Macia, ininteligível
Dobro-me sobre os joelhos
Para tentar enxergar
Suas pegadas
Na branca face da cerâmica
Que cobre o chão.

Salga esse silêncio,
Te peço,
Proteja-o de apodrecer
Às primeiras horas da manhã,
Quando o primeiro raio de sol
Tocar a pétala da primeira margarida.
Proteja-o de explodir
Quando rebelar-se o panapaná.

Salga-o.
Salve-o de suicidar-se diante de mim
Quando eu abrir os olhos
E disser “bom dia”.

Que o silêncio perdure
Na tua caixa
De música
Constantemente cerrada.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

quinta-feira, 24 de março de 2011

AS LUVAS


 [Imagem: Pé e mão - Eivar Moya 
Vídeo:  Send me an angel - Scorpions]

Recebo, consternado, de tua mão
A marca da minha própria.
Algo que me tiveste levado
E só então trouxeste de volta,
Tornaste a mim a linha da vida
Ou outra impressão qualquer
Para que eu pudesse me recompor,
Ser inteiro, talvez.

Agora, vê,
Quanto tempo estive olhando para mãos lisas,
Quantas vezes as esfreguei contra rochas para marcá-las,
Quanta falta me fez a linha do destino
E a linha da vida
E a linha do coração.
Tanto desencanto pela pura inexistência
De identidade.

E me constrange como se estivesse ainda nu
E sempre tivesse estado nu.

Constrange-me por não passar de uma luva.
Os sinais que ora enxergo
Parecem de uma falsidade irremediável
E titubeio
Entre permanecer com as mãos lisas, a identidade inexpugnável,
Ou aceitar tal pele sobreposta à minha e desejar
Desejar ardentemente que ela me revele
O irrevelável.

Recebo, consternado, de tua mão
A marca da minha própria.
E nada do que vejo sou capaz de reconhecer
Assim como, se levasse ao rosto as palmas recém-marcadas
Elas também não o poderiam reconhecer.
De que adianta, então, ter de volta as linhas
E os calos e os vincos e as cicatrizes?
De que adiantam habilidades táteis
Quando o que se quer é a luz?

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]



NOTA: Tenho o coração confortado pelas pessoas que não deixaram de vir à minha casa enquanto eu mesmo estive fora... Vocês cuidaram dela para mim. Tenho vindo pouco, mas sinto o cheiro de cada um que passa por aqui. É festa sensorial e alento para meus dias velozes. Obrigado!

domingo, 30 de janeiro de 2011

BALADA DO EMPAREDADO


[Imagem: Icarus - Hendrik Goltzius 
Vídeo:  Ironic - Alanis Morissette]

Com uma parede contra as costas – oprimindo
E outra se erguendo à frente do meu peito
Sinto o ar fresco rareando, se esvaindo
Numa medida crescente que não tem jeito.

Opostas ao coração as costelas – comprimindo
E o osso esterno oposto ao tórax estreito,
Na medida em que a parede se vai subindo
Sobe-me também um pavor que não tem jeito.

Grossas correntes presas aos pulsos – aspergindo
O suor dos braços nesses tijolos desfeitos,
Uns sobre os outros eles se vão reunindo
Como muralha fatal que não tem jeito.

As pernas fracassadas – a sanidade caindo
O corpo pesando com um congênito defeito,
Penso que ouço – grasna o carrasco sorrindo
Dessa minha condição que não tem jeito.

Vai-se a parede – à altura dos olhos – indo
Selar a alcova, seu pouco ar rarefeito
Parece-me aos olhos que estou dormindo
Numa escuridão eterna que não tem jeito.

Já emparedado – com o oxigênio findo,
Cai-me – pesada – cabeça pr’ao lado direito,
Espaço para que a loucura se vá construindo
Como parede de cova que não tem jeito.

E antes que a demência acabe nutrindo
De irônica vida o mortuário leito,
Forço toda a força dos ossos partindo
Forçando os tijolos que não têm jeito.

E se ainda agora há o sangue fluindo
É que a testa dura encontrou defeito
Na parede nova – a carne se abrindo
Encontrou a cura pr’ao que não tem jeito.

Eu – emparedado – sofro ou estou fingindo?
Cedo à condição que já não tem jeito.
Uma parede às costas se auto-destruindo
E outra se elevando dentro do meu peito.


[Dos: POEMAS DO ESTOQUE]

domingo, 23 de janeiro de 2011

TEIMOSIAS SECRETAS


(Imagem: The artist's children - David Davies
Vídeo: Cuitelinho - Renato Teixeira] 

(Ou: Partes do grande tratado universal acerca do que se pode ou não fazer num fim de tarde).

I.
Pelo silêncio eu chego a Deus.
Deus chega a mim pelo mistério.
Tá aí a nossa diferença primordial:
Sou mais objetivo e mais econômico.

Dezenas de vezes reconheço que falho,
Mas na maior parte do tempo eu teimo mesmo.
Quando há possibilidade de inventar uma desculpa
Eu a invento, mesmo que a verdade seja mais fácil.
A natureza das desculpas é nos colocar em constante perigo
Como se Deus nos deixasse por nossa conta
Naqueles minutos em que as elaboramos.

II.
Um velho tem mais sabedoria do que eu,
Uma criança tem mais inocência do que ambos,
Uma passarinho é menos dependente do que os três
E eu, sinceramente, não sei a quem devo me devotar.
(Por falta de coragem
Me devoto aos meus próprios interesses.
Sendo assim, erro para dentro).
O egoísmo não é a melhor saída,
Mas é uma saída bastante cômoda,
(Melhor que a do gambá
Ao fingir-se de morto).
De qualquer modo
Tanto o egoísmo quanto o gambá
Têm seus maus odores.

III.
Por uma janela se vê uma dama nua
Mas pelo buraco da fechadura se vê o que realmente importa.

IV.
Fiz um pacto com Deus
Ele me ensina sua linguagem e eu lhe ensino a minha.
Ele sairá ganhando
Jamais aprenderia nos livros da eternidade
Bestagens tão grandes quanto as que produzo.

V.
Tem um passarinho de papo amarelo fazendo ninho
Num fícus que tenho no quintal de casa.
Se ele me soubesse pedir
Eu o daria uma casinha de barro toda caiada,
Mas ele é orgulhoso demais
(Orgulhoso ou mudo, vai saber...).

VI.
Depois de velho dei pra ficar besta.
Acho que é o fruto do treino de uma vida inteira.

VII.
Vivo na cidade, mas tenho os dois pés
Sujos de esterco de vaca.
Um dia desses arrotei salsinha.
Não é sempre que isso acontece,
Portanto não vivo me arriscando
A arrotar na salada alheia.
Sei que isso é meio asqueroso
Mas se pudéssemos sentir o complexo cheiro das almas
Saberíamos que entre o esgoto
E o roseiral
Tudo o que cheira merece respeito.

VIII.
Nem sempre a tarde se esgueira
Nas frestas da persiana.
Quando isso acontece vejo carros listrados,
Cortados pelas tênues lâminas da janela,
Correndo em desabalada pressa
Pela rua de frente.
Se correrem mais é bem capaz que se desfaçam,
Retalhados...

IX.
Deus me ouviu falar dEle e veio espreitar.
Fico meio sem jeito com a visita,
Nunca sei o que o que pensa a meu respeito.
O que sei é que nunca reclamou
(Isso deve ser um bom sinal).

X.
Parte do meu desejo não passa de um suco de tangerina,
Outra parte ficaria bem feliz de ter assistido
Ao nascimento dos planetas.
Por isso mesmo me detenho por algumas horas,
Todas as noites, a espiar o céu
(Vai que hoje de noite tenha reprise).
Depois que uma ou duas estrelas nascem
Perco a paciência e me volto para o suco.
(Acho que é por isso que nunca vi galáxia alguma nascendo).

XI.
O ineditismo da criação é questionável.
Para que raios se criaria um negócio
Fadado a ser antigo desde seu nascimento?

XII.
O sol já está inteiro escorrendo, escorregando.
Se não o segurarem, escurece.
As árvores da rua já estão se encolhendo
Preparando-se para a noite.
Parece-me que a noite elas ficam menores –
Deve ser por medo do escuro –
Quanto menores, mais fácil de se esconderem.

XIII.
Uma verdade e uma teimosia para terminar:
Verdade é que minha alma tem cheiro de mangueiras
E que em meu coração cabe uma invernada de gado nelore.
Teimosia é continuar tentando ser moleque
No meio dos pastos.
É continuar sentado sobre o mourão do curral,
Distraído, me olhando sempre de longe,
Até que seja definitivamente moleque,
Até que Deus desista
De me envelhecer...


[Dos: POEMAS  DO ESTOQUE]

[Escrito originalmente para o livro "A Minha Idade de Cristo"]

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

POESIA POR QUE?


[Imagem: Oedipus and the sphinx - 
Jean-Auguste Dominique Ingres
Vídeo: L'aurora - Zizi Possi]

Poesia porque a chama da vida se esvazia,
Porque se ri a hiena enquanto ameaçam-lhe a cria,
A leoa que se acerca quando a olha se sacia;
Do cio de ambas as fêmeas a letra se denuncia.

Poesia, poesia, poesia... (Por que?).

Poesia porque a sobra na falta se abrevia,
Abre uma chaga em seu dorso e um verme nela se enfia,
Brilham num mesmo horizonte o condor e a harpia.
Do âmago dessa chaga a letra se pronuncia.

Poesia, poesia, poesia... (Por que?).

Poesia porque a sede nela se acaba e se inicia,
Porque nas garras da águia a serpente rodopia,
Num ninho das taturanas a borboleta crescia
E o que antes era fogo queima em letras, se recria.

Poesia, poesia, poesia... (Por que?).

Poesia porque a sorte se descobre ao fim do dia,
Porque no cheiro dos lobos um almíscar se irradia,
A ramagem da planície lhes cobre a coluna esguia
E p’ras letras que eles uivam, longe uma cigarra chia.

Poesia, poesia, poesia... (Por que?).

Poesia porque a vida ao peso da morte esfria.
Entre predador e caça há a garra e a fatia,
No cheiro ocre de sêmen a fêmea fera procria
E a letra que dela nasce é temporã e tardia.

Poesia, poesia, poesia... (Por que?)

Poesia porque tudo do contrário ruiria.
Porque no bote da píton há veneno e iguaria,
Em seu abraço apertado uma corça findaria
E a letra desse namoro seria finda e fria...

Poesia, poesia, poesia... (Por que?)

Poesia porque ontem a metáfora exigia;
Porque o véu negro da noite a minha alma cobria,
Eu era a fera, o lobo, um monstro em mim residia.
Eu uivava, eu urrava, eu suava, eu renascia...

Poesia, poesia, poesia...

[Dos: POEMAS PERDIDOS NO TEMPO]

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CONSTRUÇÃO


[Imagem: Picapedreros - Gustave Coubert
Vídeo:  Coração vagabundo - Gal Costa]

Feito cigarro que não para de queimar
Mesmo depois de abandonado.
Feito tempestade que, mesmo dissipada,
Deixa enxurrada como lembrança.
Feito vulcão
Que não sabe se extinto
E, por isso, fumega das entranhas.
Feito cavalo selvagem que por ausência de saber impossível
Voa nos prados seu desejo pássaro
Incapaz de ser contido.

Feito palavra que, sozinha, encaixa
No fim da frase
Quando a voz deseja outra.
Feito céu de outubro avermelhado.
Feito poeira sobre livros em porões,
Esperando que dedos a violem.
Feito Deus brincando de esconde-esconde
No dia final da criação.

Feito espada que seja puro fio,
Feito espelhos em sobreposição,
Feito instante de revelação secreta e surpreendente,
Feito harpia quando estende as asas,
Feito farol acasalando luz em frestas de neblina,
Feito espasmo involuntário.

Meu coração é puro calo,
Meu coração bombeia a emergência sensorial
Para todos os confins de pele, cabelos, células.

Meu coração abriga correntezas
E não admite barragens;
Arrasta pedras, ciscos, troncos imensuráveis,
Lança-os à margem de mim
E eu sigo,
Com tudo o quanto me traz,
Construindo castelos assombrosos.

Belos e assombrosos castelos.

[Dos: POEMAS RECÉM-NASCIDOS]

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

PALAVRAS PERIGOSAS


[Imagem: A perigine falcon with a ptarmigan - 
Richard Ansdell
Vídeo: King of pain - Alanis Morissette]  

…Escrevo com a carne.

Com freqüência não tenho sono
Outras, sou apenas sono e languidez.

Sofro de pavores e fobias de quase tudo o que me cerca.
Aprisionado me sinto menos vulnerável
E, portanto, seguro de meus medos, intimamente distantes.

Movimentos peristálticos e emoções controversas, deveras
Assoberbado, tomado por sons e reflexos involuntários
Quase um animal, instinto puro, fúria e desejos,
Hidrofobia encapsulada, presente, constante, visceral...

A perseguição da palavra é meu exercício de caça
E nos caçamos e escondemos um do outro simultaneamente
Até que seja inevitável nosso encontro no meio de um poema
E ela me espreite e eu a espreite com olhos assustados.
Ansioso, mas profundamente reverente ao seu poder.

Palavras perigosas sabem de mim melhor que ninguém,
Conspiram para que eu não descanse de viver um só segundo,
Para que o sossego não se apodere de meus vícios, amansando-os.
Regem o coro voraz dos lobos uivando na noite imaginada
Letárgica, lisérgica, terrivelmente real – real demais,
Viver, resistir, olhar-se no espelho – são palavras perigosas.

Companheiro do escuro cuja sombra é boa túnica
Eu me olho muito profundamente quando a noite cai
E cada dia sou o mesmo e ao mesmo tempo estranhamente diferente
Como se um outro me reconhecesse quando eu o olho,
Sem que eu fosse capaz de reconhecê-lo dentro de mim.
A escuridão inevitável – quando encarada com força – não assusta,
Tem-se apenas de tencionar os músculos para que não se rompam.

Crescente, metricamente interessante e muito perturbador
Deve ser um poema – assim como um auto-retrato surrealista.
Predisposto a retratar de dentro para fora a cor ocre e o cheiro cru
Das vísceras – e, como se não bastasse – a alma, desde seu âmago.
Eu não durmo bem há dias e os dias me perseguem durante o dia
Pelo cansaço o qual me imprimem sobre os ombros, peso, peso secular.
Eu enfrento um de meus medos a cada vez que saio de casa
E, muitas vezes, fujo deles, desesperado, em silêncio, dentro de mim.

Nasci há mais de trinta anos e ainda tenho sete, e já tenho setenta anos,
A verdade é que nenhuma causa me mantém atrelado ao tempo
E, portanto, envelheço e rejuvenesço com uma rapidez estúpida.
Meu cansaço, meu dicionário flácido, meu escárnio essencial
De tudo o que é raso, mesquinho, metódico e seguro
São escudos atrás dos quais me protejo de enxergar frontalmente
O quão simplório, comum e cotidiano tenho sido e ainda mais o serei.
Abutres de meus dedos, chacais de meus olhos, grasnar de corvos
Sobre o poema – a presa ainda se debate.

Eu escrevo com a carne...


[Dos: POEMAS PERDIDOS NO TEMPO]

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

JOSÉ RUI ME MATOU


[Imagem: Studie eines mannlichen torsos  - 
Jean-Auguste Dominique Ingres
Vídeo:  Tanto mar - Chico Buarque]

Tornava para casa depois de um dia de quase tudo. Um dia de agenda. Nem bem atraquei à margem do portão, me interrompe o moço da guarita. Desço o vidro do carro e ele me estende o pacote.

Mas, quê? Pacote parto, por essas bandas onde ninguém me sabe o nome? Quando me escrevem – os que me escrevem – o fazem por meios mais ágeis. Mandam recados eletrônicos. Mas o pacote tinha marcas de mão. Entrei, estacionei. Li o destinatário (para ter certeza de que não era engano). “Bom, é para mim!” Concluí.

Tanto tenho me habituado às distâncias silenciosas que chego a desacreditar em cartas. Tudo em meu universo vagarosamente se tornou virtual. Nesse universo onde o nada e o tudo coexistem irmãmente, tenho aprendido a amar com intimidade quem não conheço. Como Neuzza Pinheiro e seu “Eukatlan; como Zélia Guardiano – guardiã das simplicidades; como Eliane Elianinha, que forja armaduras enquanto escreve; como Lara, se desmanchando em letras. Como tantos mais que me flecham com palavras pontiagudas.

Mas aquele pacote escrito à mão me arrastou para os subúrbios do universo, como um cão que arrastasse atrás de si, com fome e prazer, a ossada de um mamute.

Entro no elevador e abro. Era a promessa.

Desde o outro lado do mundo, lugar a partir de onde nossas raízes ecoam, a poesia embarcou em caravela moderna e veio desbravar-me.

José Rui Teixeira, descendente híbrido de Camões, Pessoa e Sá-Carneiro atracou sua nau de letras em meu porto, fincando-me bandeira portuguesa. Tornei-me território incorporado, quiçá uma nova “Ilha de Vera Cruz”.

Este poeta teve o cuidado e a delicadeza, próprios dos nobres de alma e linhagem, de cumprir uma promessa virtual, forjada depois de dois e-mails. E eu, que tenho redescoberto a forca inescrupulosa da poesia concebida no coito violento dos teclados recebi, maravilhado, o filho feito matéria deste poeta, seu livro “Diáspora”.

Bem, daí advém o título desta crônica: “José Rui me matou”. Primeiro por dar corpo à promessa; depois pela artilharia pesada de seus versos. Prostrei-me diante deles e fui alvejado direto no peito. Sangrei desde o imaginário e caí, com gozo vermelho vazando da boca e dos demais sentidos. Atingiram-me, primeiro, Zerbino e Ataúde; os demais sacramentaram minha condição de alvo. Alvo da beleza aflitiva, tipo de beleza que descarna e empresta novo sentido ao que se denomina beleza.

Agora estou aqui, desfalecido e feliz. Assistindo nuvens vermelhas roubarem restos de sol. Com razões de sobra para amar ainda mais Eliane, Neuzza, Zélia, Lara, Cecille, Vera e todos os demais.

O virtual existe. Qualquer que seja a forma de se manifestar.

Essas pessoas sem carteira de identidade me provam isso todos os dias. Assim como José Rui Teixeira me provou com seu presente.

A distância não existe e, se existe, as palavras são capazes de exterminá-la.

[Das: CRÔNICAS DO DIA]


Para conhecer um pouco da obra de José Rui Teixeira visite: 

www.equinociodeoutono.blogspot.com

sábado, 4 de dezembro de 2010

CHÃO DE PÉROLAS


[Imagem: The jewel case - Guillaume Seignac
Vídeo:  Meu fado meu - Mariza]

Deitaste ao chão tuas lágrimas salgadas
Para regar as rosas de meu caminho.

Eu te deitei pérolas.

Colheste ao campo os delicados lírios do oriente
Com os quais me perfumaste os pés.

Eu te colhi âmbar.

Roubaste palavras novas para brilharem
Na escuridão de minhas angústias.

Eu te roubei brilhantes.

Trouxeste mãos clementes, olhos mansos e suaves
Para fitarem o fundo de meus olhos vermelhos.

Eu te trouxe rubis.

Foste o fértil vegetal, a árvore cuja sombra
Tomou de meus ombros o cansaço.

Eu te fui o aço.

Tu me levaste pela mão com a pressa dos famintos,
Arrastando-me por jardins e lamaçais
Onde, não sei...
Atrás de mim os meus rastros, mas só os meus,
As tuas pegadas, não as reconheço mais.

Tu me deste de beber de teu leite sagrado,
Levaste de meu corpo o grosso sangue e o suor,
A mocidade...
Sinto, então, o peso do teu corpo no meu corpo,
Nosso universo expansivo, mais e mais fundo, muito maior.

Plantaste estrelas mansas em meus sonhos infantis
Para que eu forjasse delas douradas esperanças.

Eu te plantei ouro.

Esta sempre foi a minha resistência, é bem verdade,
A minha teimosia, é bem verdade,
A minha confissão de culpa, a bem da verdade,
E a minha profissão de desespero e fé, minha verdade
Hasteada, visível, porém discreta.

Bem me lembro que no dia derradeiro em que nasci
Assim se fez, (e se repete):
Varri as folhas e juntei os ciscos,
Afastei safiras das garrafas que os embriagados
Atiraram contra as pedras e contra a noite,
Rastelei as algas, companheiras da maré,
Soprei todas as impurezas da areia
E antes que amanhecesse
Semeei pérolas ao chão.

Veio o sol ver o ladrilho que te fiz,
Quedou-se envergonhado, recuou.
Durante todo aquele dia
Choveu.

(Desde então chove,
Desde então resistimos e pisamos, delicadamente,
Nosso chão de pérolas
Molhadas)...

[Dos: POEMAS DO ESTOQUE]